Cadeia de salvar

Por: José Borges da Silva

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A rua parecia larga, descampada, comparada às casas miúdas, baixas, camufladas entre bananeiras, abacateiros e até árvores nativas. De um lado, enfileiravam-se os vários barracões das máquinas de beneficiar arroz e café, da fábrica de farinha de mandioca e dos armazéns. Do outro, as casinhas semi-escondidas no arvoredo. Para um lado a rua conduzia para o cemitério, para o matadouro, em direção à cidade de Pratápolis. Para o outro, rumava para o Cerrado, para a Água Limpa, para a cidade de Capetinga. Transitavam pela larga via, além de carroças e cavaleiros, a “baratinha” branca novíssima do dono dos barracões, com o estranho nome Volkswagen escrito em letras cursivas na traseira. Mais raramente passavam pequenos grupos de bois velhos, carcomidos, dorsos marcados por ferroadas, coxos, caolhos, chifres enormes, marchando lentamente na direção do matadouro.

Mal caía a noite e era acesa a iluminação artificial, composta de lâmpadas incandescentes comuns, encimadas por uma espécie de pratinhos esmaltados, que projetavam grandes halos de luz amarelada no chão desnudo. Sob um dos postes, um bando de moleques fazia alvoroço, correndo uns atrás dos outros, metade com camisa, metade sem camisa, com ela amarrada à cintura. A turma, dividida em dois grupos, um de soldados e outro de fugitivos, brincava de cadeia de salvar. O grupo de perseguidores corria atrás do outro até tocar o adversário. O toque bastava para tornar prisioneiro o fugitivo. A prisão consistia em ficar parado com uma das mãos tocando o poste. Cada elemento que era preso dava a mão para o que estava junto ao cárcere e todos iam formando um cordão estendido em direção do meio da rua. Quando todos os fugitivos eram presos, invertia-se o papel. Os prisioneiros tornavam-se caçadores e os caçadores fugitivos. Mas, havia possibilidade de os elementos do grupo caçado salvar companheiros presos, bastando que um livre se aproximasse e tocasse em qualquer dos prisioneiros sem que fosse tocado pelos caçadores. Logo, quanto mais prisioneiros, mais trabalho para os caçadores, que tinham de perseguir os fugitivos e vigiar os presos. Para os fugitivos a missão maior era escapar e salvar companheiros presos quando possível.

Normalmente tudo corria bem até por volta de nove e meia da noite. Depois desse horário o clima ficava tenso, porque a qualquer momento podia aparecer o jipinho da polícia, com os comissários de menores que espalhavam terror entre a molecada. O horário permitido era até as dez. Mas, às vezes, antes desse horário o jipe aparecia. Havia o boato de que antes das dez não prendiam ninguém, apenas espantavam, mandavam pra casa... Mas, moleque que se prezava não deixava jamais que o jipinho se aproximasse demais, porque todos conheciam o destino dos recolhidos pelos comissários: a terrível escola de correção! Ninguém sabia bem em que consistia, mas ninguém conhecia alguém que houvesse voltado de lá. O destino, dizia-se, era Belo Horizonte, São Paulo ou até o Rio de Janeiro. Por isso, quando o jipinho apontava em um dos cantos da rua todos zarpavam velozmente e desapareciam nas penumbras da noite, porque liberdade era o que de melhor possuíam e nenhum da turma pretendia comprovar se daquela prisão havia ou não meio de salvação.

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