Estação

Por: Marina Garcia Garcia

Os ponteiros do relógio competiam entre si mostrando-lhe que o tempo havia deslizado por sua existência. Ele podia ouvir os berros do chefe por mais um atraso. Não devia ter tomado café, teria ganhado mais alguns segundos.

Passou rapidamente ao lado do túnel, que deveria facilitar a passagem dos pedestres, mas cujo cheiro de urina impregnava toda a redondeza. E agora esta... O trem apitava e, claro, a cancela se fecharia, mais alguns minutos perdidos. Como ele, outros também esperavam, puxavam assunto, mas ele fechava a cara e não olhava para os lados. Tinha pressa e aquelas pessoas parece que tinham boca de sossego.

Finalmente estava andando de novo. Dobrou a esquerda, seguiu pelo interminável muro onde de espaço em espaço lia-se ‘É proibido colocar cartazes’. Observou as árvores frondosas. Logo adiante viu o caminhão de abacaxi, saboreou-lhe o cheiro pensando quando poderia parar para experimentar aquela iguaria que todos os dias provocava-lhe água na boca. Dobrou à direita, desceu pela Sabino Loureiro que, ainda sonolenta, se vestia de praça. Olhou para a estátua do menino que coçava o pé e pensou: ‘Que vontade de estar no seu lugar!’ Acenou para os amigos da livraria Estudantil. Viu quando o homem forte abria as portas do Supermercado Dário. Contemplou a igreja São Sebastião, fez o sinal da cruz.

Eram 17 anos em ponto quando chegou ao seu local de trabalho. Mergulhou na saudade. Não pôde conter uma furtiva lágrima. Admitiu que a vida sempre oferecia como regalo as lembranças idas e vividas.
 

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