Procura-se um caderninho

Por: Everton de Paula

Procura-se aflitivamente um pobre caderninho azul que tem escrita na capa a palavra “Endereços” e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.

Eu o perdi nas imediações do teatro municipal, ou do museu histórico; pode ser também que ele tenha sido encontrado na antiga estação de trem da Mogiana ou na praça da Capelinha. Na verdade, não sei precisar o local, sei apenas que o perdendo, perco um pedaço de mim.

Explico.

Quando completei 10 anos de idade, ganhei de uma madrinha, hoje fantasma, um caderninho azul. Entre beijos balzaquianos e abraços sufocantes que me desmancharam o cabelo abrilhantinado, ela explicou qualquer coisa próxima a “azul é para os meninos, caderninho rosa é das meninas...” Sorri amarelo e o coloquei desinteressadamente sobre a cama. Ah, aniversários daqueles tempos: presentes sobre a cama para provocar o olhar espichado dos colegas de quarteirão e escola. Havia os presentes bacanas e os sem-graça. Bacana era ganhar um relógio de pulso, a prova d’água, com pulseira de matéria plástica. Mas havia os temidos, previsíveis, nunca ausentes; chato mesmo era ganhar meia, lenço, sabonete e espelhinho oval para se guardar no bolso de trás da calça e, de vez em quando, usá-lo para examinar a quantas ia o topete, farto, mas com a triste sina do desaparecimento completo no futuro.

Agora, eis que me surge um caderninho azul, próprio para se registrarem endereços. Coisa de fresco! Mas presente de madrinha é algo tão sagrado quanto ramo bento atrás da porta.

Guardei-o.

O tempo passou, mas o que é o rolar do tempo para quem tem 11, 12, 13 anos? Sucede o caso da primeira namorada. Era chique trocar retratinhos, tanto quanto anotar nome e endereço, de preferência num caderninho especial. Nem pensei duas vezes: voei à velha gaveta de inutilidades e de lá retirei o caderninho azul. E na frente da namorada que seria eterna, ar de mocinho de matinê, escrevi-lhe o nome, o endereço e desenhei um coraçãozinho flechado.

Claro, a eternidade do namoro durou meio verão; perdi-a para um rapazote que sabia dançar tuíste e pular de ponta do trampolim na piscina da cidade. Ela era muito exigente. Risquei seu nome no meu caderno que passou a ter outra utilidade. Na época de ginásio, era comum correrem entre os colegas de classe uns tais questionários. Cada página de um caderno encimava uma pergunta como ‘nome’, ‘endereço’, ‘prato preferido’, ‘cor preferida’, ‘um casal perfeito’ etc. Depois de passar por uma dúzia de colegas ao longo de uma semana, o caderninho azul voltou às minhas mãos. À noite, na intimidade do eu sozinho, ficava sabendo um pouco da personalidade dos amigos da época. Meu Deus, eu não posso ter perdido esse relicário!

Nele estavam escritas mensagens que, a custo, havia conseguido de professores queridos e até do próprio diretor da escola, do bedel, do merendeiro... Mas o caderninho azul serviu também para anotar trechos de letras de música, frases de Lobato que eu achava legais, resumo dos livros que havia lido, impressões sobre pessoas e fatos, a vinda de Jânio Quadros a Franca, do Zuluaga, o tiroteio na Jussara, o caminhão das cestas de Natal Amaral, curiosidades, piadas, adivinhações... Até que se transformou numa espécie de diário, ou semanário, ou qualquer periodicidade que se queira dar a um coração de 15 anos que vai descobrindo o mundo aos pouquinhos, às vezes com calma, outras com sofreguidão.

Lá estava a letra miúda e caprichosa de meu pai dando-me conselhos de ordem espiritual; mensagens de tias e primos, mas principalmente o registro de minha formação, retalhos de passagens da escola, nos quintais, brincadeiras de rua à noitezinha...

Era um caderninho de 150 páginas; por isso guardou tantas anotações assim. Alguém diria “caderninho? Isto é um álbum, meu rapaz!” Acho que caderninho tem algo a ver com valor subjetivo, apreciativo. E digo mais: pejorativo.

Esgotei-o chegando à última página. Voltava, riscava nomes de quem se tornara desafeto para mim; refazia textos; recriava situações, rasgava pedaços de páginas; às vezes escrevia nele com mãos suadas e sujas; às vezes com mãos limpas e perfumadas de sabonete. E fui aprendendo a escrever, a gostar de registros escritos...

Com o colegial, a faculdade, o degas aqui criou um esboço de bigode; trabalhei na revisão e linotipia de jornal, estudei contabilidade, veio o tiro-de-guerra, joguei muito futebol e fiz por adormecerem as fantasias de então. Pensei mesmo em até me desfazer daquelas frescuras de caderninho azul. Conheci amores e desamores, dancei e levei tábua nos bailes de formatura... Por todo esse tempo o caderninho azul voltou ao canto mais escuro da gaveta de inutilidades.

Depois de tornar-me cinqüentão, as emoções começaram a bater em minha alma; exigiam atenção e exercício; retirei o caderninho azul da gaveta, folheei-o e, confesso, nada senti de especial. Nem mesmo sei como ele foi parar junto aos meus livros de aula, dentro do carro.

Dia desses o perdi. Aí, sim, avaliei o quão preciosas eram aquelas anotações que a memória se despreocupara em retê-las; afinal, estavam impressas nas páginas do caderninho azul. Por isso rogo a quem o tenha encontrado, que o devolva intacto a este eu aflito e incompleto.
 

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