Por uma última primavera

Por: Vanderlei Cesar Honorato

O sorriso de Maria se abre ao ver a filha que vence a porta do quarto e aproxima-se de seu leito. Não há dor, para aquela mulher, que supere a alegria do amor materno. Nem os quase trinta anos da menina fazem racional o sentimento que une mãe e filha, jungidas em terna amizade.

Maria se esforça em um abraço puro no intento e difícil no movimento; olha a volumosa barriga da filha, perguntando se está próximo o dia. A menina acaricia o rosto da mãe, põe alinho em seus raros fios de cabelo e responde afirmativamente. Fala de seu dia, da casa em construção, do quarto confortável que à futura vovó está reservado.

O quarto que abriga essas duas almas se torna um universo onde, por breves horas, semeiam aquelas suas mais doces esperanças, a crença verdadeira de dias superáveis, de agonia justificada e de resignação aos planos do imponderável. Dão de ombro à atmosfera malsã daquele cômodo, preferindo compartilhar projetos para o amanhã.

Enquanto devaneiam, refluem à velha casa, deliciando-se com a lembrança viva do aroma de baunilha que se desprende do sonho saído da panela. Riem da volúpia que queimava suas bocas, do suco que aliviava o ardor e da ânsia de voltar ao quitute irresistível. Concordam que foi um tempo mágico, de rica trilha sonora e enredo clássico. Lamentam o reconhecimento tardio, o equivocado querer abandonar aqueles dias e o anseio de mudar tudo na vida. Bastavam alguns ajustes. Agora sabem que há sonhos pequenos capazes de conceber gigantescas mudanças.

Para afastar a melancolia que embarga suas vozes, a filha vai à janela e abre a cortina, incidindo a luz daquele outono no rosto pálido da mãe. Volta ao leito e abre pacotes, mostrando as delícias que trouxe. Maria corresponde à expectativa da filha e pede por um doce, embora consciente de que o paladar já não é mais o mesmo. Aspira, até o último pulso, fazer feliz sua menina.

A intimidade das amigas é quebrada pela entrada do médico, o qual, se não traz boas notícias também as incômodas não revela. Exames de rotina são repetidos sob o olhar triste da filha que não se esquece de fugir o rosto da vigília materna. Não quer que sua tristeza faça infeliz sua mãe.

Antes de sair, o médico pergunta à paciente se deseja algo, recebendo trêmula resposta negativa. Os olhos pré-agônicos de Maria, contrariando a boca que nada pedia, imploram por mais um tempo, qualquer que seja, desde que suficiente para acalentar, uma única e magnífica vez, a netinha que conforta o ventre de sua menina. A compreensão da não palavra também oculta a lágrima que a grávida interdita, enquanto implora por sua hora, querendo fazer avó sua mãe.

A filha sonha antecipar o tempo, a mãe anseia burlá-lo. Ambas, em fremente desejo, reforçam o amor que possibilita a eternidade e que redige páginas memoráveis de um livro indelével chamado amizade.

 

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