Becos

Por: Mauro Ferreira

Anos atrás, estive em Diamantina e fiz questão de conhecer o Beco do Mota, imortalizado pela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, um dos maiores letristas da música popular brasileira. Claro, há muitos outros becos na vida, alguns sem saída.

Um beco que me recordo sempre é o da rua Júlio Cardoso, ao lado da casa onde morei com meus pais. Foram muitos os vizinhos que moraram por ali, mas para mim continua sendo o beco da Maria Esmeralda, nossa professora de inglês no IETC. Seu irmão Paulo César, que é médico e vive em São Paulo há muitos anos, sempre nos visitava nas férias. Com ele, protagonizei uma gafe inesquecível.

Adolescente nos anos 60, eu era leitor assíduo das revistas em quadrinhos e de música, como Intervalo, para saber novidades do rock and roll e da música popular brasileira. As revistas traziam comentários sobre os lançamentos musicais em Londres e Nova York, incluindo a lista das 100 Mais da Billboard, que era nossa bíblia musical. Numa das visitas do Paulo César, ele comentou que havia conhecido Nova York nas férias e tinha ido ao bairro de Greenwich Village. Eu, que ouvia seu relato fascinado, com empáfia, disse que era impossível, pois aquele bairro ficava em Londres. Travamos uma teimosa discussão por horas. Para depois eu descobrir, logicamente, que ele estava certo, confundi o bairro nova-iorquino com a cidadezinha inglesa de Greenwich, aquela do meridiano, que eu visitaria dando risadas da gafe anos depois.

No beco, havia o Popô, amigo do meu irmão, que desapareceu com a família que foi embora da cidade. O “sêo” Alírio, pai da professora Ângela Bordini, o jornalista A.C. Coutinho que hoje está às voltas com a melhoria da imagem da Câmara Municipal (um emprego onde a tarefa é árdua). As óperas ouvidas no último volume por outro morador do beco que fazia a gente ligar a vitrola com os discos de rock pesado no play loud como represália. O médico Paulo Falleiros, sua mulher Alice e o arquiteto Alexandre Sampaio também moraram lá. Do outro lado da rua, ainda vivia o divertido Ivonei, que foi Rei Momo do carnaval francano por muitos anos.

A cidade cresceu e o centro foi sendo abandonado. Os moradores mais jovens construíram novas moradias nos bairros, os mais velhos foram morrendo e as casas sendo substituídos pelo comércio. Mas é preciso que o centro volte a ser ocupado por moradias, já tem toda a infraestrutura instalada e será mais seguro. Para isso, será preciso outro tipo de prefeito, que pense no futuro e não viva no passado como o atual.

Todos os que ali viveram naqueles anos, nalgum momento, cruzaram seus caminhos com os nossos no pequeno beco que ainda resiste, mas apenas como saída de um estacionamento, tudo foi demolido. Mas continua como um beco vivo, cheio de histórias e memórias.
 

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