Pescaria

Por: José Borges da Silva

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Pai e filhos planejaram a semana inteira a aventura prometida para o feriadão da Semana Santa: uma pescaria na represa da Usina Jaguara, em Rifaina. Tudo porque o pai, empresário, começava a se preocupar com os filhos, que cresciam rapidamente e afastados do seu convívio.

O garoto de seis anos estava eufórico com a preparação da tralha. Queria entender o funcionamento do molinete, como e quando usariam a lanterna, qual o truque usado para apanhar os peixes. O de cinco queria saber se poderia nadar, se iam passear de barco. A caçula, que ainda não completara quatro anos, mostrava menos entusiasmo pela aventura principal, mas estava adorando a idéia de passear com o papai, porque era a primeira vez que ia dormir fora de casa sem a companhia da mãe.

O plano original era irem na quarta à tarde para voltarem no sábado após o almoço.

Mas, compromissos fizeram com que o pai adiasse o passeio para a quinta após o almoço. E outros afazeres de última hora o obrigaram a delegar à mulher toda a organização da aventura. Com isso, acabou sendo introduzido um “kit” de sobrevivência, contendo filtro solar, repelente de mosquitos, remédio para febre, esparadrapo, etc, deixado aos cuidados da caçula, que desde a quarta-feira já passeava com a sacolinha branca pela casa.

No fim, tendo o pai alugado um rancho nas margens da represa, acabaram chegando a Rifaina na sexta à noitinha. E por acordo entre o pai e a mãe, a pescaria ficou programada para o sábado de manhã. Mas a noitada no rancho foi o máximo para a meninada. Desde o coaxar dos sapos aos piados das corujas, do cantar dos curiangos ao farfalhar do vento na folhagem da mata, tudo era novidade, motivo de muitas conversas e lições de sobrevivência e de natureza. Até a lanterna foi usada numa diminuta excursão noturna junto a umas pedras localizadas entre a represa e a casa, em que puderam ver uma rã que mergulhou num pequeno poço logo que a luz a atingiu. Também serviu para que as crianças vissem, de longe, pousados no solo da mata, dezenas e dezenas de pares de olhos vermelhos dos curiangos. Com isso foram dormir depois da meia noite, o que por si só já era uma façanha.

Apesar de tudo, às nove da manhã de sábado todos estavam às margens do lago.

Após iscarem os anzóis com massinha, iniciaram, enfim, a pescaria.

Só meia hora depois a vara do menino mais velho deu sinal de que havia peixe no lago. Bem devagar a linha começou a dançar na água, de um lado para outro, ora descrevendo um círculo ao redor da ponta da vara. O garoto deu um grito, atraindo a atenção das outras crianças, que já estavam brincando na grama nas proximidades. “Pai, pai, peguei um”, bradou. Mas assim que içou a vara começaram a ouvir um guincho, uma espécie de gemido, que deixou as crianças intrigadas. “É um mandi”, avisou o pai. “Tem ferrão, me dêem o alicate que está na sacola”, falou apontando para as crianças que brincavam. “Vai, filho, puxa pra cá”, ordenou ao mais velho. Então surgiu um peixinho prateado de pouco mais de dez centímetros dependurado, estático, guinchando alto. “Ele está chorando, pai”, gritou a caçula. Meio sem jeito o garoto pousou-o na margem com cuidado, bambeando a linha. “Não toquem, os ferrões estão nas nadadeiras laterais, precisam ser quebrados”, ensinou o pai com autoridade, aproximando-se com o alicate. Mas o peixinho, que após ter sido pousado na grama permanecera inerte, deu um salto e, livre do anzol, caiu na água e desapareceu. A menina deixou escapar um grito de euforia. E o do meio, grave, acrescentou, desculpando-a: “ah, pai, ele era filhote mesmo, não era?” E o mais velho concluiu: “sabe, pai, eu não gostei muito de pescar não... Acho que é porque demora muito!”, justificou sem nenhuma convicção. O pai avisou que era hora de irem preparar o almoço e prometeu um passeio de barco para o período da tarde. “Eba!” Foi a manifestação geral.
 

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