O vigor das palavras

Por: Sônia Machiavelli

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Lúcido nos seus 83 anos, o culto e inteligente Evanildo Bechara, entre os nomes mais respeitados no estudo da língua portuguesa, concedeu entrevista publicada no último número de Veja e se posicionou diante da polêmica suscitada pelo livro Por uma vida melhor. Muitos já escreveram sobre o tema nas últimas semanas, mas vêm de Bechara as frases mais assertivas na tradução de uma opinião. Uma delas, a de que “um país que se pretende globalizado não pode se dar o direito de empobrecer seu idioma.” Concordo com Bechara, ao mesmo tempo em que me lembro do saudoso João Alves Pereira Penha, nosso emérito professor de filologia no curso de letras. Foi ele quem despertou em várias gerações enorme curiosidade pela origem das palavras, ao desvelar o percurso evolutivo delas levando em seu bojo transformador informações históricas, geográficas, sociológicas e até psicológicas. Bechara e Penha, dois enormes saberes.

Por causa desses homens, assuntos e lembranças, trago para sugestão ao leitor um livro lançado em 2002 e de grande interesse para todos os que ainda acreditam, como Bechara, que “o domínio do idioma é resultado de educação de qualidade”, com isso pressupondo, entre outras necessidades, a ampliação do vocabulário e das leituras. O livro de que falo é A origem das palavras e seu autor o jornalista Márcio Bueno. Com estilo leve e despretensioso, fugindo ao jargão acadêmico, mas tratando cada verbete com muita propriedade, ele traz à baila nomes e expressões de uso comum que podem instigar o falante curioso, aquele que alguma vez se surpreende a pensar: “mas de onde virá esta palavra?” Bueno insere cada verbete numa história, sem se prender à descrição de fenômenos fonéticos, mas respeita as conclusões dos especialistas -linguistas, etimólogos, filólogos e dicionaristas, o que torna a leitura confiável e prazerosa.

Seguindo a ordem alfabética, o leitor vai se deparar, por exemplo, com a origem de bebê, que deriva de apelido de Nicholas Ferry, anão que viveu na corte polonesa de meados do século XIX; de cesariana, cuja explicação difere da habitual conotação com o parto de um dos césares; de gol, que só em português tem a vogal alongada na fala dos narradores esportivos; de gaze, que tem a ver com a Gaza da faixa ainda disputada por judeus e palestinos; de vinheta, que a televisão tornou comum em nosso país e deriva de vignete, pequena vinha, num malabarismo visual recente que brota dos desenhos em forma de folhas e cachos de videira, antes só ornamentos de louças e peças de mobiliário.

E por que brasileiro, se o sufixo eiro na língua portuguesa é mais usado para designar profissão ( jardineiro, engenheiro, sapateiro) e menos para procedência, atributo dos sufixos ês (francês), -ano (francano), -ense (recifense) ? Bueno explica com uma aulinha de história. Mas para comentar baderna, palavra intraduzível e similar à saudade, só existente no português do Brasil e com acepções específicas, o autor necessita de mais espaço. Ocupa uma página a narrativa que tem no centro “a bailarina clássica italiana Marietta Baderna, que em 1849 se auto-exilou no Brasil, onde conquistaria uma legião de fanáticos e aguerridos admiradores.”

Oportuna é a escolha de índio e indígena para dirimir dúvidas, pois a maioria acredita erroneamente que são sinônimas e irmãs. Engraçado e esclarecedor é o resgate de Ricardão, cuja origem se divisa claramente num dos primeiros programas de humor do rádio brasileiro, o Balança mas não cai, nome de um edifício povoado por personagens hilários, entre eles o Primo Rico e o Primo Pobre. Frequentador da casa do primeiro, ironizado pelo segundo, Ricardão tornou-se no imaginário popular (que contava então só com vozes e sonoplastia) a figura simbólica do homem sedutor. Depois ele migraria para a tevê e ganharia definitivamente as ruas. A riqueza do livro está em estabelecer relações entre palavras usadas no cotidiano e suas origens ora próximas e claras, ora distantes e nebulosas.

Poderia parecer ironia, se tivesse sido publicada pós-polêmica causada pelo questionável Por uma vida melhor, a dedicatória de Márcio Bueno na primeira página, para “todos aqueles que utilizam o vigor das palavras para ajudar a construir um mundo melhor”.

As palavras são potentes, poetizou Cecília Meirelles; lindas, afirmou Nelson Rodrigues; mágicas, disse o velho Ronsard; mais misteriosas que os fatos, lembrou Mc Orlan; encerram um tempo enorme, avisou Shakespeare. Tenhamos zelo com elas, empregando-as com justeza na expressão de pensamentos e afetos. É um desafio a ser tentado todos os dias.

Serviço
Título: A origem curiosa das palavras
Autor: Márcio Bueno
Editora: José Olympio
Ano: 2002
Preço: R$ 29,90
Onde comprar: submarino.com

A origem na publicidade

Márcio Bueno

Tanto quanto os linguistas, publicitários têm pela palavra uma devoção especial, que os faz buscar a fonte primeva onde elas nasceram. Assim acontece com Márcio Bueno, que é jornalista e publicitário. As palavras sempre o instigaram e à procura delas ele se fundou como escritor e jornalista.

Nascido em 1945, cursou engenharia e Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, até perceber que sua praia era outra. Ao se descobrir vocacionado pela comunicação, foi à luta. Os tempos eram duros, difíceis, censurados quando ele começou no jornalismo. Submetido à censura prévia exercida pela Polícia Federal, foi repórter, redator e editor de Movimento, Jornal do Commercio, Retrato do Brasil e O Globo. Colaborou com Pasquim, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e a revista Agroanalysis, da Fundação Getúlio Vargas. Exerceu cargos de editor de telejornais na Rede Globo, editor-chefe de telejornais e diretor de programas na Rede Manchete e de superintendente de jornalismo na TV Educativa. É co-autor do livro “20 anos de resistência as alternativas da cultura no regime militar”, publicado em 1986 pela Editora Espaço e Tempo.
 

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