Estranho cupido

Por: Farisa Moherdaui

O casal que até então não se conhecia, deu início naquele lugar, em meio a pessoas, flores, perfume e velas, a um inusitado caso de amor à primeira vista. Jovens e belos, por todo o tempo trocavam olhares e sorrisos fugazes como se naquele momento só os dois pudessem estar ali.

- Então, o encontro teria sido num jardim, numa praça ou numa festa talvez?

- Que nada, a atração, o flerte, o namoro, tudo iniciado num velório, onde as pessoas se cumprimentavam, se abraçavam entre coroas de flores, velas e faixas com dizeres de sincera condolência. E o corpo inerte do homem ali, bem esticadinho, numa urna de muito bom acabamento.

Ela, a graciosa jovem, em pé ao lado do morto, o narizinho já bem vermelho, de tanto passar o lencinho branco como se estivesse a chorar durante todo o tempo. Ele, o garboso rapaz, do lado oposto parecendo também pesaroso a velar o defunto, mas sem desviar os olhos da menina bonita.

— Mas, afinal, quem era o morto? Um primo, tio, amigo, ou outro parente?

- Era sim primo dela por parte da avó e dele por parte do bisavô; um parentesco meio distante e se nem se conheciam, mais difícil num velório onde havia um defunto entre os dois.

E foi justamente durante o enterro que o casal conseguiu uma breve mas tão desejada aproximação. As mãos se tocaram e num cochicho puderam marcar um encontro longe do velório, do enterro e do próprio morto.

Um bom tempo se passou e outra vez pessoas, flores, perfume, e luz de velas; o casamento bonito do par que recorda sempre a estranha maneira de como se conheceu.

Já há alguns anos estão casados e felizes com um casal de filhos e duas gracinhas de netas.

São meus amigos os protagonistas dessa história e tantas vezes rimos juntos quando comentamos que até um morto, se disposto e “de bem com a vida”, pode fazer de bom grado o intricado papel de cupido.
 

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