O nome dele é Bichão

Por: Claudia Filipin

Dia desses, confessei a um amigo meu de trabalho que, tempos atrás, morria de medo dele. Estávamos meio altos de várias cervejas, eu tomei coragem e lasquei: morria de medo de você, Zé Eduardo. Ele rachou o bico, mas , no fundo, vislumbrei uma sombra de dúvida em seus olhinhos apertados, como quem pensasse: “logo de mim, Claudinha???”.

O apelido dele é Bichão. Sim, Bichão, epíteto desse homenzarrão, e dizem que essa alcunha foi-lhe colocada porque ele mesmo tem por hábito chamar seus pares de ‘bichão’. Não sei não se essa versão é correta, pois sempre achei que o Zé tinha meio jeito de ‘homem das cavernas’, aquele tipo entre o desajeitado-meio cambaleante-desastrado. ‘Bichão’, para designá-lo, seria bastante apropriado.

Minha paúra do Bichão não começou nessa ocasião (ela já vinha de antes), mas foi desencadeada certa feita em que liguei no seu setor procurando pelo gerente do local. Ele atendeu gritando, como é seu costume, e, sinceramente, se não estivermos a mais de um quilômetro do Zé, telefone é dispensável. Como o chefe não estava, ele se limitou a grasnar “Vazou!” e desligou o telefone. Que cara estúpido, que falta de modos, que grosseirão! pensei. Passei a evitá-lo, mal o cumprimentava, não me faria falta alguma uma pessoa daquela casta dentre minhas relações, nem pessoais e nem de trabalho. De que adiantava ter formação superior, bom cargo na empresa, ser irmão de político respeitado, sem ter qualquer tipo de modos? Eu, no meu ridículo papel de vestal balzaquiana, risquei o Bichão de meus contatos, pois era sensível demais para suas práticas sociais.

Coincidentemente, logo após esse ocorrido, comecei a tomar ciência de várias histórias do Bichão, muitas delas girando em torno de aventuras em cima de sua Vespa (ele até parece um daqueles romanos malucos). Bem, aventura é modo de falar... Os acidentes aconteciam, e não eram só com a lambreta, eram dos mais variados: Bichão passou correndo em cima de uma lombada e se esbodegou; Bichão pegou carona com um amigo, perdeu o sapato ao fechar a porta e, na tentativa de recuperá-lo, quase perde o pé;fiscalizando uma obra, Bichão escorrega e cai numa vala. Percebi que ele era praticamente uma lenda. Tinha uma época que, quando eu via o Bichão na empresa, era sempre com galo na cabeça, braço quebrado, perna enfaixada...

Recentemente, mudando de setor, fui trabalhar bem perto dele e pude testemunhar o quanto as pessoas gostavam daquele ‘estupidão’: cumprimentavam-no com todo afeto , faziam brincadeiras alusivas às suas desventuras e acidentes, tinham com ele códigos internos e piadas particulares. Lentamente, minha opinião foi se transformando. Aos poucos, em contato com essas mesmas pessoas que reverenciavam o doidão, pude perceber a excepcionalidade daquele ser humano.

E nada como a convivência para descobrir como estava errada e fui idiota ao julgar uma pessoa somente pelo seu jeito de falar (no caso dele, gritar), de andar, de se movimentar, de se arrebentar. O ‘homo neanderthalensis’ é uma das mais raras fontes de ternura que já conheci: é respeitoso do seu jeito, é amigo leal, é afetivo sem economias, é uma pessoa do bem, enfim. O homem colocou em xeque vários dos meus pré-conceitos. Hoje tenho a impressão de que o Bichão é ser de um hibridismo sui-generis: uma mistura dos personagens ternos do Garcia Marquez, dos ‘desajustados de bem’ de Charles Bukowski e dos hilários da série Asterix.

Fico feliz por ser ainda capaz de quebrar paradigmas. Chego à conclusão de que o mundo seria muito melhor se tivéssemos ‘Bichões’, de preferência um em cada esquina, a rondar nossas vidas miseráveis.
 

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