Fiz o que pude

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A minha parte eu fiz. .

Já aos dez anos, não era o melhor, mas era o mais esforçado, o que mais corria no time da Rua Cavalheiro Petráglia, lá na Estação, onde Diocésio, Helinho, Jorge Turco, Válter, eu e mais uma dezena de moleques chutávamos bola de pano, comemorávamos gols à boca da noite.

Quando algum garoto pôde comprar bola de borracha, as balizas ainda eram de pedras, ou de pedaços de tijolos, e os craques ainda atuavam descalços. E eu permanecia atleta esforçado e assíduo nas pelejas, apesar das surras da mãe. Ela responsabilizava o filho porque a bola, agora tão esperta, voava por cima do muro, a molecada voava atrás, estragando canteiros, pisoteando as margaridas.

A minha parte eu fiz.

Ajudei a capinar matagal, a arrastar as traves, a construir o campo do Água Verde, quando os pais expulsaram a gritaria, os palavrões e os jogadores do campinho da Rua Cavalheiro Petráglia.

Persisti na minha tarefa quando acomapnhei o Ciede de Freitas e o Sétimo Bolela, fomos jogar lá no Campo do Matadouro. Com eles, quando tinha dezessete anos, fui campeão varzeano de Franca. Ainda hoje, olho a foto do Esporte Clube Caramuru e fico envaidecido.

Fiz a minha parte quando o Luiz Eras me levou para jogar no São Paulinho, e fui convíver com os famosos Zezão, Tiplum, Berto, Vedevé, Pelezinho... Uma vez, eu e Zezão fomos emprestados para disputar um campeonato amador pelo Palmeirinhas. Foi então que fui jogar ao lado de Gualtinho, de Capeta e de tantos craques da época.

Depois, o trabalho me exilou na cidade de Ceres, em Goiás, onde continuei fazendo a minha parte. Durante três anos, conciliei serviço e esporte. Defendendo o time do Ceres, conheci as maiores cidades goianas. Outra vantagem adveio desse tempo: apanhávamos como vaca na horta e aprendi sólidas lições de humildade.

O destino impôs caminho: retorno à cidade natal, onde continuei fazendo minha parte. Assim, no campo da Associação Esportiva Cassiense, colecionei, a um tempo, vitórias e derrotas ao lado de Alemão, de Tonho do Mário Pires, do Charuto, do Caetano, do Piriá...

Os pés, que descalços desconheciam espinhos e tachinhas, acabaram repletos de calos, colhidos aqui e ali. E eu, persistindo na minha tarefa. Até que, aos quarenta e cinco anos de idade, encerrei, em definitivo, minha carreira de jogador de futebol.

Estou tranqüilo, convicto de que fiz minha parte.

Convicto sempre estive de que fiz o que estava a meu alcance para me igualar a Edson Arantes do Nascimento.

A minha parte eu fiz.

Sempre dormi cedo, não bebi, não fumei. Obedeci ao Ciede, ao Luiz Eras, ao Broca, ao Cirilo, ao Gereba, a todos os treinadores com quem convivi.

E quase me igualei ao Pelé.

Faltou muito pouco. Só faltaram duas coisinhas: novecentos e noventa e nove gols e a vontade de Deus.

ELE preferiu escalar-me no time do magistério.

Perna de pau também aqui, corro, chuto, defendo e ataco, esperançoso de que nossa equipe se alce a divisões superiores.
 

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