As babas de Drácula

Por: Mauro Ferreira

Não sei qual o motivo que leva jogadores de futebol cuspir o tempo todo no gramado, coisa horrorosa de se ver, ainda mais agora que as televisões têm supercâmeras que mostram tudo em detalhe, até aquelas pequenas rugas que todas mulheres gostariam de esconder. Nenhum outro esporte tem tanta cuspida quanto o futebol. No basquete, vôlei, futebol de salão, handebol, atletismo, tênis, em nenhum outro se vê o jogador ou esportista cuspindo para todo lado. Enfim, deve haver quem goste.

Sempre que vejo esta cena, acabo lembrando do Alfredão, a voz de ouro do rádio francano. Atualmente, ele vive em São Paulo, mas não o vejo há anos, sei que ainda é locutor da Cultura ou da Eldorado. Tenho boas lembranças adolescentes da convivência com ele, era nosso vizinho, morava na mesma quadra que eu, entre as ruas Júlio Cardoso, General Carneiro, Voluntários e Padre Anchieta.

Uma das nossas diversões era jogar futebol no gramado da praça do Hotel Francano, onde hoje está o banco (aaargh) Itaú. O avanço da indústria automobilística estava destruindo o piso da praça, que era originalmente de ladrilho hidráulico, executado pelo arquiteto francês J.E. Chauvière. As imponentes palmeiras imperiais ocupavam toda a lateral da rua Voluntários, onde se realizava uma feira livre, mas o prefeito Hélio resolveu alargar para os carros e derrubou tudo, mesmo ante o poético protesto de seu irmão Alfredo neste jornal.

Nosso futebol moleque era noturno. A iluminação escassa não impedia renhidos ataques e defesas, com cuidado apenas para evitar a torneira da irrigação, que “jogava” na zaga do gol que dava para a Santa Casa e costumava provocar doloridos hematomas no dedão dos incautos e afoitos. O que a gente ainda não sabia, naquele tempestuoso verão de 1965, é que o jardineiro da prefeitura, cansado de arrumar os estragos no gramado, resolvera agir. Foi somente quando a bola caiu na sarjeta que percebemos um homem obscurecido pelas palmeiras apanhá-la no chão e rapidamente furá-la várias vezes com um canivete. Era o pobre jardineiro cansado de replantar a grama.

Alfredão, com sua voz grave e entonação de barítono, apenas disse: “deixa para lá, vamos arrumar outra bola”. Dito isto, deu uma tremenda cusparada no gramado. Eu fiquei enojado e disse para ele parar com aquilo, pois a gente poderia cair sobre, eca. Ele apenas me olhou de cima para baixo, como se fosse um inseto e respondeu: “estas são as babas de Drácula, pode ir se acostumando”. Depois disto, sempre que vejo gente cuspindo em campos de futebol, lembro do Alfredão na praça do Hotel que não existe mais.

Logo o Alfredão começou com um programa na rádio Hertz, que a gente sempre escutava. O Fernando Latorraca ficava azucrinando e ligando para ele, pedindo para ouvir as músicas do Stevie Wonder, que estava começando a estourar nas paradas de sucesso. Como o próprio Alfredão, que foi fazer sucesso na capital e nunca mais voltou.
 

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