Uma noite de outono

Por: Paulo Maestri

Noite estrelada, cheiro de dama -da - noite. .

Caminhamos pela rua. De mãos dadas, sem pressa, sem nada, só a ilusão de poder estar juntos naquele momento. Carros, camionetes, ônibus, cavalos e cavaleiros, pessoas de muitos lugares chegam. Nossos perfumes se misturam ao perfume da flor, característico das pequenas cidades; nas grandes já foi engolido.

Calmamente converso, cumprimento as pessoas, conhecidos e amigos. A gente não se desgruda. Aproveito o momento, estamos na procissão de uma Santa Sexta. A pracinha central amparada pela Igreja matriz. Os casarões imponentes, desafiadores da história. A roseira florida que me atiça. Sorrateiro e esperto puxo uma rosa em botão, e meio bobo ofereço a ela, que sorri, agradecendo com os olhos. Outras pessoas se aconchegam. Combinamos os passos, caminhamos lado a lado. De braços dados, orgulhoso agradeço naquele momento o presente que ganhei de Deus. Sinto-me seguro e animado. Sutilmente observo as pessoas que caminham ao lado. Cada rosto com seus mistérios, como dizia o poeta. Pessoas simples, porém fervorosas nos agradecimentos, nos pedidos mais íntimos. Todos caminham movidos pela fé: a moça que quer casar, a mãe que sonha rever o filho há muito desaparecido, o homem maduro que almeja se arrumar, a tia que pretende arranjar emprego para o sobrinho a quem considera filho. A sogra que torce para a nora passar no concurso público.

Eu também caminho movido por uma fé. Às vezes até questionada. Mas também a procuro, sinto falta. A fé ainda move pessoas, concluo.

As beatas “puxam” a ladainha que ecoa entre a multidão. As rezas, os cantos, as repetições, os sermões que o padre entoa soam como pressentimentos.

Os sonhos cristãos de reformas. A vida se repetindo, movendo obstáculos.

Minha adorada ao lado testemunha tudo isso, inclusive a inspiração. Comunga, avança com a satisfação cumprida de agradar a Deus e a nós mesmos. Estamos vivos.
 

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