Assistiremos à demolição?

Por: Eny Miranda

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Com o endosso e o patrocínio do MEC, uma nova técnica de desmonte está sendo proposta para as escolas de ensino fundamental e, por extensão, para as de outros níveis. Não, não se pretende atentar contra a inteireza de tijolos, pedras, telhas ou pisos. Para executá-la, não se utilizarão marretas nem retroescavadeiras. Serão distribuídas, a meio milhão de estudantes, páginas que pregam a inutilidade da sintaxe de concordância em uma “variante da língua”, dita “adequada para determinadas ocasiões” e que (informação estarrecedora!) já é “usada pela maioria dos brasileiros”. Estou certa de que, a esta, Drummond se recusaria assistir passivamente.

Sigo com ele, olhos abertos, coração contristado, mas atento, pelos caminhos de nossas frágeis escolas, agora agredidas por livros(!) que desdenham o apuro cultural, incentivam a manutenção da ignorância.

E sou tomada de um grande temor:
“Começou a demolição. Passando pela rua, ele viu a casa já sem telhado (...)”.

Ferramentas invisíveis trabalham páginas e mentes, em surdo desfazimento de saudáveis pilares - dizem -”Por uma Vida Melhor”. Tal desmanche foge ao lento processo de transformação natural, como o “que se vai desenvolvendo em nós”, ou no idioma. Deve-se a outro tipo de agente, mais rápido, mais corrosivo. Por quê? (Por que se quer sempre encontrar uma causa ou uma explicação para atitudes que nos confundem, confrangem, entristecem?).

Talvez porque o idioma não tenha o mesmo peso, o mesmo valor material do ouro, ou do petróleo, neste mundo tão afeito a pesos e a valores materiais.

O idioma, como a música, é arte do ar: lida com sons; e, como a pintura e a arquitetura esboçada na folha, é também arte das curvas, das retas e - por que não? - das cores: lida com formas e seus múltiplos conteúdos. O idioma trabalha o verbo, ar da palavra arte; erige a leveza, a beleza, quando tais curvas e tais retas se desenham com elegância no terreno da sensibilidade; e constrói a sabedoria, quando o pensamento se apoia no chão firme do conhecimento, estrutura-se na precisão da lógica, mantém-se no eixo do equilíbrio, expõe-se na clareza do nexo. E, na opinião de alguns, ar, arte, curvas, retas, cores, sensibilidades, conhecimento, nexo, equilíbrio... valem o que pesam, ou seja, menos do que se possa imaginar.
“Passou nos dias seguintes e viu o progressivo desfazer-se das paredes, que escancarava a casa de frente e de flancos, jogando-a por assim dizer na rua. Os marcos das portas apareciam emoldurando o vazio (...). A demolição prosseguiu à noite, espontaneamente. Um lanço de parede desabou sozinho (...)” 

A aceitação (pior: a aprovação), pela escola, da fala descuidada, alheia a qualquer norma sintática ou gramatical, não pode ser construtiva. E a crítica ao trabalho que exige elaboração de raciocínio lógico e observância de tais normas como base de apuro verbal pode ser catastrófica, porque fragiliza, atrofia, esboroa qualquer pretensão de verticalidade. Há quem afirme, e com razão, que “a força da língua está em sua arquitetura”. Retiradas as estruturas de sustentação, o desmantelamento prossegue, espontâneo, e se faz surdamente, impunemente, na obscuridade do obscurantismo. A subversão da Língua Portuguesa significa, para bons construtores e apreciadores de seus poderes e encantos, como Fernando Pessoa, a subversão da Pátria.
“A casa encolhera-se, em processo involutivo. (...) sem teto, aspirava mesmo à desintegração”.

O medo de encarar o erro e assim denominá-lo inibe legítimas possibilidades de reconstrução, reerguimento, crescimento. Esvazia edificações.

É leviano, e preconceituoso, sugerir que o homem simples seja incapaz de perceber e corrigir falhas; incapaz de absorver refinamentos, de alcançar o poder contido no pensamento bem estruturado; incapaz de admirar a arte, enxergar a beleza e a força exibidas na fala clara, concisa, precisa, elegante; incapaz de reconhecer a importância da palavra forjada na justeza do saber sintático. Que o homem simples seja incapaz de evoluir. E é inconcebível que a observação e a tentativa de correção do erro, pela escola (aliás, estas, suas funções precípuas), sejam consideradas nocivas, encaradas como manifestações preconceituosas -”preconceito linguístico” (?). “E a vez do escritório, parte pensante e sentinte de seu mecanismo individual, do eu mais íntimo e simultaneamente mais público (...)”

Corrosão grave e cava, porque não visa à matéria, mas à essência. Língua é patrimônio cultural, lastro imponderável. É soberania, valor inegociável. Suas cifras não são (ou não deveriam ser) alcançáveis pelas oscilações da Bolsa, pelo sobe-e-desce do mercado de ações e de equivocadas posturas acadêmico-ideológicas. Traçam-se em pautas superiores a levianos, metálicos interesses. Respeitar a língua é respeitar-se. E a língua portuguesa, identidade nossa, paradoxalmente, não nos pertence só a nós. Identifica também outras nações, espalhadas por continentes distintos. “Fitou (...) o que tinha sido a sua casa e era um amontoado de caliça e tijolo, a ser removido. Em breve restaria o lote, (...) sem sinal dele e dos seus (...)”

Desfazendo seus alicerces, demolindo sua estrutura “pensante e sentinte”, desdizendo e desdenhando a lógica do raciocínio sintático, reduzindo a fala à sua função mais comezinha, destrói-se a identidade da língua, polui-se o ar da arte verbal.

Por Drummond, ouso concluir:
Viu sinais de fumaça surgindo no horizonte.
 

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