A atualidade de Lima Barreto

Por: Sônia Machiavelli

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Primeiro foi o filme, em 1998, com direção de Paulo Tiago e nomes estelares no elenco: Paulo José, Giulia Gam, Antônio Calloni, Ilya São Paulo, Tonico Pereira e Cláudio Mamberti nos principais papéis de Policarpo Quaresma, herói do Brasil, de Lima Barreto, que os canadenses traduziram bem para O patriota.

Dez anos depois veio a peça, Policarpo Quaresma, trabalho magistral de Antunes Filho, que para colocar no palco os atores do seu CTP trabalhou com eles durante cinco meses e os fez ler até o Foucault de Vigiar e punir, livro onde o francês denuncia a violência e os mecanismos de dominação nos manicômios.

Em seguida foi a vez de Flávio Moreira da Costa, por aqui comentado há quinze dias, que inseriu na antologia Os melhores contos de loucura, o título Como o homem chegou, “um retrato contundente de uma época em que doença mental era caso de polícia, e, mais que isso, uma radiografia do próprio país com sua política em tom menor, seus coronéis, suas mazelas.” Também de Barreto.

No ano passado, um romance que o escritor deixara inacabado, O cemitério dos vivos, foi reeditado junto a Diário do hospício, pela CosacNaif, com prefácio de Alfredo Bosi. Ainda em 2010, com introdução da organizadora Lilian Moritz Schwarcz, a Cia das Letras presenteou os leitores com Contos completos de Lima Barreto. Outra grande editora, A Penguin Companhia, relançou há alguns meses o primeiro romance do escritor, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para muitos críticos seu melhor texto: ao narrar a ascensão social de um jovem e talentoso mulato, o escritor está falando é de si mesmo.

No último domingo, Otávio Frias Filho, em artigo para a página Literatura, do caderno Ilustríssima, da Folha, abriu o leque de comentários sob título Telescópio satírico - Lima Barreto, um mestre da República. Como quem conhece a fundo toda a obra, fez uma análise que vai muito além do personagem sonhador e perturbado que é Policarpo Quaresma, nome do major que nos seus rasgos visionários defende o uso do tupi-guarani como idioma oficial. Embora seja este romance a obra mais conhecida do autor, outros títulos se inserem no rol do que se produziu de melhor no período conhecido por República Velha (1889-1930), como O homem que sabia javanês e outros contos, Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, Histórias e sonhos, Bruzundungas, Clara dos Anjos.

Para completar esse revival de um escritor que não perde a atualidade, a coleção Retratos do Brasil Negro, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia e Estudos Urbanos pela Michigan State University, traz agora a público a biografia de Lima Barreto, assinada por Luiz Silva. A editora Selo Negro, responsável pelo lançamento, tem por objetivo divulgar a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negras. Volumes anteriores colocaram mais luz sobre as personalidades de João Cândido, Nei Lopes, Sueli Carneiro e do francano Abdias do Nascimento, falecido há um mês.

Este mais recente título sobre Lima Barreto já se inscreve como contribuição importante aos estudos de Bernardo Mendonça, Antônio Arnoni Prado, Luciana Hidalgo e Francisco de Assis Barbosa, de quem a José Olympio republicou em 2002 A vida de Lima Barreto. O livro da Selo Negro está dividido em três partes, resgata a história pessoal, traça a cronologia, faz levantamento da produção publicada, cita inéditos e exercita a crítica ampla, buscando apontar as singularidades que fazem do biografado um perfil solitário e único em nossas letras. Lima Barreto não é produto da tradição nem deixa seguidores. Como ilustra com lucidez histórica Otávio Frias Filho, entre um reformismo de inspiração positivista, quase autoritária, e um liberalismo conservador que provinha do império escravocrata, Lima Barreto preferiu a distância de ambos. Usou seu talento para satirizar a sociedade brasileira, num painel de tipos que ainda reencontramos em nossos dias, tão reconhecíveis são os traços.

Não é incomum ouvir de leitores o relato de um certo incômodo diante do universo com o qual se é confrontado nas páginas de Lima Barreto. Esse desconforto, derivado da ironia mesclada ao humor, também advem dos temas que permanecem na ordem do dia no Brasil: racismo, ostentação, violência, esnobismo, injustiça e...corrupção política. “ O ficcionista, assim como o cronista e o jornalista, nos deixou um amplo e pulsante painel da vida cotidiana de seu tempo, alcançando-nos com sua capacidade de revelar e problematizar questões perenes, universais e aquelas para as quais o povo brasileiro não conseguiu encontrar ainda solução”, sintetiza o pesquisador Luiz Silva.

Serviço
Título: Lima Barreto - Coleção Retratos do Brasil Negro
Autor: Cuti
Coordenadora da coleção: Vera Lúcia Benedito
Editora: Selo Negro Edições
Preço: R$ 22,00
Páginas: 128

Fundador do Quilombhoje

Luiz Silva

O Quilombhoje é uma organização de caráter literário que congrega artistas preocupados e cuidadosos em relação a questões sociais que dizem respeito mais particularmente ao negro. Luiz Silva, mais conhecido por Cuti, foi o seu fundador e é dos mais atuantes componentes. Sua ferramenta de trabalho é o verbo. Poeta e ficcionista, também cronista e roteirista, este agitador cultural é mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Seu nome consta como um dos idealizadores e criadores da série Cadernos Negros, da editora Selo Negro. É autor de Poemas da carapinha, 1978; Quizila, contos, 1987; Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro, 1991; Negroesia, poesia, 2007; Contos crespos, 2008; Moreninho, neguinho, pretinho; ensaios, 2009; Poemaryprosa, poesia, 2009; Literatura negro-brasileira, 2010.

Em seu trabalho de pesquisa para o livro Lima Barreto/Selo Negro, Cuti diz que o escritor criou personagens inesquecíveis, como o quixotesco major Quaresma e a ingênua Clara dos Anjos e seus escritos sempre denunciaram o papel marginal a que negros e negros-mestiços eram relegados em sua época. Crítico do racismo, da burocracia, da corrupção, sofreu ao longo da vida diversos preconceitos, aos quais respondeu com uma obra vigorosa. A clareza com que retrata os primeiros anos do século XX tornou-se fonte de amplas reflexões para educadores, pesquisadores, militantes do movimento negro e todos aqueles envolvidos na construção de um Brasil mais solidário.
 

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