O pacote

Por: Caio Porfirio

133023

Pasta velha na mão, preocupações muitas, contornou o lixo da calçada e viu, no meio dele, um pacote em papel vermelho, bem feito, preso em finos elásticos. Olhou-o, curioso. Tocou-o com o pé. Medo de apanhá-lo. A curiosidade venceu a indecisão. Apanhou-o, sopesou-o, olhou em torno. Ninguém àquela hora da manhã. A curiosidade persistia e aumentava. Viu o Café em frente com fregueses. Marchou para lá, o pacote jogado dentro da velha pasta. Pediu licença e foi ao sanitário. Trancado, procurou abri-lo, tirando os elásticos finos. Quando o abriu quase desmaiou. Seqüência de pacotes menores de cédulas altas. Importância grande diante dos olhos. Jogou tudo dentro da velha pasta. Entregar à polícia nem pensar. Espalhar a notícia e de certo apareceriam vários donos.

Saiu para a rua, desorientado. A solução dos seus problemas dentro da velha pasta. Cresceu a ânsia de solucioná-los. Presente caído do céu. E o primeiro credor não muito distante. Marchou instintivamente para lá. Não lhe trazia nenhuma desculpa pelos atrasos. Pagou tudo e agradeceu. Mentalmente fez a lista dos credores e visitou-os um a um. A dois ou três deles pediu o número da conta bancária para depositar o débito que devia. O pacote foi se esvaziando e ele se sentindo aliviado.

Quando tomou o caminho de casa dentro da velha pasta estavam apenas o papel azul amarfanhado e algumas poucas cédulas. Totalmente livre das preocupações e das noites insones.

Viu pessoas entrando na casa vizinha e alguém chorando. Entrou em casa e a mulher olhou-o aflita:

- Coitadinha dela. Vendeu o terreno em dinheiro vivo para reformar sua casa. Perdeu na rua o pacote enrolado em papel vermelho. Está desesperada. Vou para lá. Você deve ir também.

Ela saiu e ele sentou-se, as mãos cruzadas entre as pernas, cabeça baixa encostada aos joelhos, sentindo-se ausente de tudo.

Conseguiu murmurar:

- E agora?
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras