Os males do crescimento

Por: Chiachiri Filho

Houve um tempo em que se podia, altas horas da madrugada, andar tranqüilamente pelas ruas e praças de nossa cidade. Não havia assaltos, sobressaltos ou atos de vandalismo. Podia-se deparar com um cachorro irritante ou algum bêbado impertinente e desorientado. E era só. As portas e janelas das casas fechavam-se apenas à noite. Não havia grades, altos paredões, alarmes escandalosos, câmeras indiscretas de TV, guardas de plantão. Meu sogro, por exemplo, tinha a total despreocupação de deixar o seu automóvel parado em frente à sua casa, na Voluntários da Franca, com as portas e janelas abertas e, mais ainda, com a chave no contato. Almoçava, tirava uma soneca e voltava para o veículo que se encontrava no mesmo lugar, sem nenhum sinal de violência e sem qualquer vestígio da passagem de algum meliante. Franca era assim: calma, pacífica, sossegada. Se alguém entrasse num estabelecimento comercial, era para comprar alguma coisa e não para roubar. Se alguém pegasse um carro de praça, era para se dirigir a algum lugar e não para assaltar o pobre “chauffeur”.

Bons tempos aqueles em que os bandidos, os bêbados, os doidos, os tarados, os delinquentes tinham residência fixa e eram facilmente identificados, conhecidos e vigiados pelas autoridades policiais. Dependendo do crime praticado, que eram poucos, a polícia, pelo “modus operandi”, já sabia imediatamente quem era o culpado. Bastava ir até sua casa e recolhê-lo ao Cadeião.

Por aquela época, Franca contava com pouco mais de 50 mil habitantes. A vida transcorria simples, calma e segura. O controle social era forte e eficiente. Se alguém fizesse alguma arte pelas ruas da cidade, certamente à tarde os pais já sabiam e o esperavam para o devido corretivo. Se alguém encontrasse uma carteira na calçada, primeiro deveria divulgar amplamente o achado para, depois de várias semanas, sem o aparecimento do verdadeiro dono, dela se apropriar.

Muitos se vangloriam do crescimento de suas cidades, crescimento numérico que não implica necessariamente em qualidade de vida. Ao contrário, quanto mais aumenta a população, mais problemas aparecem. A quantidade prejudica a qualidade. As pessoas transformam-se em multidão e os criminosos misturam-se com ela e nela desaparecem. O controle social afrouxa-se e perde a sua eficácia em meio a milhares de ruas, casas e edifícios. A marginalidade, livre, solta e incógnita, age impunemente aterrorizando os cidadãos.

Enganam-se aqueles que consideram o crescimento populacional como um sinal de progresso. O crescimento tem os seus males e o pior deles é transformar uma cidade tranqüila em palco de operações da bandidagem.

Uma cidade, apta para oferecer uma vida civilizada aos seus cidadãos, não deveria passar de 50 mil habitantes. A distância de um núcleo urbano para outro deveria ser de, pelo menos, 20 quilômetros.

Só assim teríamos paz, controle e segurança. Porém, como essas idéias são atualmente impraticáveis, o remédio é sairmos das ruas, enjaularmo-nos em nossas casas, ligarmos os alarmes e cercas elétricas, encararmos os nossos concidadãos com uma certa desconfiança, rezarmos para que nada de mal nos aconteça e relembrarmos os bons tempos da pacata e sossegada Franca do Imperador.
 

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