Monólogo do adeus

Por: Hélio França

Passado o eterno minuto, em que fiquei refém do meu devaneio, desperto para um presente incolor onde o hoje ainda não veio, o ontem presumiu-se apenas, e o amanhã vai depender da vontade do sol...

Dei-me por inteira, não restou uma gota de sangue, nem um pedaço de alma. Foi ficando tudo pelo caminho. Agora é fácil me encontrar, basta seguir os rastros da paixão avassaladora. Procuro as palavras inteiras e não encontro. Rasguei-as por tua causa num ímpeto de loucura, afinal, o amor centraliza e enlouquece, é como a noite pura, vemos o brilho, e, no entanto, é escura. É como a rima que um poema exprime, mas, em vão, termina.

Restou-me voz? Restou-me o grito! Verdade o que já disseram; enquanto dura é infinito. Eu só não sabia que o infinito dura uma eternidade. Vês? Não tenho mais nada a te oferecer. Rasguei as palavras, a voz ficou engasgada em mil momentos que me consumiste até o avesso. Acabei assim, nos teus olhos, vendo teu silêncio me dizer que já não me amavas. E nossas horas de êxtase? E os momentos de ternura?

– Fala! Diga algo, mas não vá embora calado assim, Hidalgo! Fala alguma coisa, homem de Deus, ou seja lá de quem diabos for. Não tens o direito de ir sem me dar resposta pelos anos que fiquei ao teu lado devorando tuas vontades, exaurindo teus desejos! Fiz tudo que querias, tuas mais loucas fantasias. Fui a mulher dos teus sonhos e vais me deixar assim, Amélia, mulher de verdade?

É claro, eu devia ter desconfiado há mais tempo. Não estavas tendo o mesmo desempenho em nossos colóquios. Tua boca já não era mais a mesma, agora percebo, e tuas mãos já não eram tão firmes. Faz tempo não sentia tuas unhas escorregando em minhas costas. Que boba fui. Que cega estava! E eu ali me deliciando em tua indiferença sem saber que explodias dentro de mim por uma questão apenas orgânica!

– Vai! Vai embora, Hidalgo! Vai procurar outra melhor que eu, se é que já não tens, seu safado! E quer saber mesmo? Nunca te amei de verdade, gostava sim do teu jeito, da tua pegada, da tua voz grave e rouca, nada mais... Isso, vai estrupício ... Hidalgo! Hidalgo! Vai com o diabo que o carregue, seu grande filho da puta... amor da minha vida ...
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras