A noite que engoliu o dia

Por: Silvana Bombicino Damian

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Guardei aqui comigo esta estória há quase cinqüenta anos, mas guardei também a certeza de que não a levaria para o túmulo. Quando a senhorita entrou pela primeira vez no refeitório e foi apresentada aos internos do asilo como sendo a nova Assistente Social, alguma coisa me assoprou no ouvido, talvez por uma simpatia imediata, que seria a jovem a primeira e única pessoa com quem eu compartilharia o ocorrido. O que a moça vai pensar ou fazer com este relato já pouco me importa, sei que meu tempo nesse mundo já vai se esgotando, e ser chamado de louco nessa altura da vida, pouco lá se me dá. Só quero mesmo me aliviar desse peso,e agradeço sua disposição em me ouvir.

Já estávamos naquela fazenda em Bela Vista , estado de Goiás, há mais de dois anos e era início dos anos cinqüenta. O dono da fazenda, seu Olinto, único patrão que tive na vida, que Deus o tenha, rico mas de coração bom, me tirou da fazenda de São Paulo onde criava gado de corte, para ajudar na implementação da recém adquirida propriedade, também de criação de gado. Eu era o homem de confiança do patrão, sempre fui honesto, graças a Deus, e se não tive muito estudo nunca me faltou curiosidade para ler tudo que me caía nas mãos, nem disposição para aprender.

Durante esse tempo nasceu nosso primeiro filho, que por vontade de Deus seria o único, e passado o tempo necessário, com a fazenda já bem cuidada e encaminhada, tratamos de arrumar nossas coisinhas para voltar para São Paulo. O menino dormia mal, a mulher sempre cansada, e voltar para São Paulo era tudo que queríamos. E aquela seria nossa última noite em Goiás.

Assim que o menino dormiu, a mulher me desejou boa noite e correu a se recolher, buscando um pequeno descanso que fosse , antes do menino acordar chorando. Passado um tempinho eu mesmo me recolhi também, era por volta de nove horas da noite e o dia seguinte seria cheio. Às cinco acordei como sempre fiz. Coloquei lenha no fogão, acendi, coei o café, tomei uma caneca e nada do galo cantar. E o menino, fato nunca ocorrido antes, continuava dormindo feito um anjo desde o momento em que a mãe o colocara no berço, na noite anterior.

Saí para o terreiro. A escuridão era imensa, nada indicava a chegada próxima da aurora, os bichos em silêncio e do canto do galo nem sinal. Acendi um cigarro, fumei e entrei em casa.No quarto a patroa dormia e nem se mexeu quando chamei e até sacudi. A criança, um anjo.

Olhei o relógio, já passava das sete.

Saí da casa e com um lampião na mão fui passando em frente às casas dos colonos até chegar à sede. Em cima do pé de jatobá, uma coruja com os olhos arregalados me olhava e juro que nunca na minha vida senti mais simpatia por um animal do que por aquele.


Quando eu rumava de volta para casa, percebi que algo, atrás do bambuzal, a uns trezentos metros além da estradinha, quebrava o silêncio e escuridão. Apaguei o lampião e dei poucos passos naquela direção até me proteger atrás de um arbusto. Minhas pernas se recusaram a ir além. Luzes nunca antes e nem depois vistas por mim, lançavam em direção ao céu escuro cores estranhas e maravilhosas. E sons do que pareciam vozes murmurantes e incompreensíveis me gelaram a alma e cada fio de cabelo da cabeça. Quando consegui me recompor, voltei o mais silenciosamente que pude, entrei em casa, fechei a porta e me deitei ao lado da mulher que dormia e ressonava.Homem de fé sempre fui, mas nunca de rezar à toa, pois naquela noite ,batendo o queixo e com o coração descompassado rezei todas as rezas que conhecia e até as que não conhecia. Acho que dormi. Acordei com a mulher chamando, a criança chorando, o galo cantando e um baita sol no céu.Não disse uma palavra do ocorrido e agradecia a Deus o fato de estar indo embora dali ao mesmo tempo que perguntava ( acho que pra Ele também) por que eu, justo eu despertei e testemunhei aquele estranho dia que não amanheceu.

Pois esta é minha estória, não sei se dádiva ou maldição, só sei que depois daquele dia o mundo mudou me levando com ele.
 

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