Um paraíso sem-graça

Por: Everton de Paula

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Há ainda quem acredite piamente na história de Adão e Eva. Não como algo advindo das analogias bíblicas, das metáforas, da leitura subliminar, mas sim exatamente como está escrito no Antigo Testamento.

Quando criança, nas aulas de catecismo da igreja católica, este meu espírito hoje terrivelmente desconfiado e inquiridor já me perguntava coisas como “Mas Eva nunca foi criancinha? Adão não tinha pai? Como alguém pode nascer do barro e do sopro?” E o caso da costela, então? Está certo que dona Ilca e dona Ivete, as catequistas irmãs, que moravam perto da igreja Nossa Senhora das Graças, na terceira casa à direita de quem desce o primeiro quarteirão da Rua Estevão Leão Bourroul, esforçavam-se ao máximo com suas histórias terríveis de pecado e castigo eterno, mas quem nasceu para desconfiar (como eu), vê a vida sempre de um modo dialético: diante de uma afirmação eu nego; e por meio desse contraste, procuro sempre uma síntese. Dá certo na maioria dos casos, mas quando erro, erro feio!

Bem, a história é outra. Fizeram-me engolir o caso de Adão e Eva goela abaixo; tive de aceitar, se não seria o excluído na fila da primeira comunhão, o que, convenhamos, não seria um bom começo, além de uma decepção para meus pais, para o quarteirão todo, um escândalo paroquial. Sem dizer da provável decepçãozinha de Ana Maria, minha primeira namorada, contava eu oito anos de idade.

É claro que aquelas perguntas ingênuas de criança hoje têm um significado especial. Vêm revestidas de valores semântico-religiosos que devem ser pontuados no contexto em que foram escritas. É mais claro ainda que se alguém quer acreditar cegamente nas histórias bíblicas de modo literal e isto o torna feliz, para que criticá-las ou tentar desvendá-las à luz da exegese e da fria intelectualidade moderna?

Melhor deixar as coisas como estão, cada um com sua crença ou com sua crítica velada.

Mas não posso deixar de exercitar alguma imaginação. Mente tagarela é uma dureza!

Vocês já imaginaram como deveria ser a vida de Adão e Eva no paraíso antes do episódio da cobra e da maçã? Nenhuma expectativa de acontecimento, de uma novidade, nenhum susto, nenhuma prestação a pagar, nenhum problema a resolver, nenhum cachorro de vizinho latindo interminavelmente durante a madrugada, enfim, nada que pudesse alterar os ânimos, provocando uma reação em forma de raiva, protesto, desejo de mudança, quebra de paradigmas... Um dia exatamente igual ao anterior, e assim sucessivamente, numa monotonia infernal... Ou paradisíaca, se quiserem.

A inevitável repetição cansativa dos mesmos atos, todos os dias.

Foi então que Eva (sempre elas, as mulheres!) inventou a história da maçã (ainda bem!). Deu no que deu. Adão arranjou um emprego e foi trabalhar. Eva arrumou umas roupas para se vestir. Pecaram; contrariaram as regras celestiais. E quando eles se encontravam à noite, tinham, enfim, sobre o que conversar, pois havia chegado ao fim a monotonia no paraíso e a vida de verdade se iniciara.

Pelo menos foi isso que narrei ao meu bom amigo Beijamim Chiarelo Netto. Ele ouviu pacientemente, alisou o queixo e disse de forma pausada: “Tem razão: vida sem pecado não merece ser vivida!”
 

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