Sementinha do amor

Por: Paulo Maestri

Falou da vida. Quase tudo da vida. Ninguém fala tudo da vida em algumas horas. Mas ela falou. Contou sua história. Quando contava, parece que rezava. Rezava. Era linda. Falou da vida, de coisas normais e anormais. O que é normal e anormal? Estava preocupada, e eu a fim de ouvir. Pedi uma ceva e dois copos. O Jonas trouxe. Brindamos. Bebemos. Olhei para o Jonas. Numa piscadela, implorava para que ele se afastasse e deixásse-nos a sós. O Jonas é profissional. Logo entendeu e saiu. Valentemente continuei. Atento a tudo, ouvia. Discutia coisas às vezes sem nexo. Seus olhos lindos voltados para mim me aqueciam. Cumprimentava as pessoas que chegavam. Tirava o chapéu. Exibia-me. Exibia-a. Ficou bêbada, estávamos bêbados e dançávamos. Eu parava, ela continuava. Eu dançava ou cambaleava. Acho que não sei. Tudo girava. Reclamei do som. Mudei de assunto. O mundo? O Brasil? A Franca? Não. Não queria falar sobre coisas sérias. Quero curtir, disse a ela. Dançamos novamente. Rodamos pelo salão. Acho que dessa vez extravasamos. Rimos tanto. Sussurrávamos enquanto dançávamos. Mais uma vez senti seu perfume macio. Sua boca alisava meus ouvidos. Arrepiei. Naquele momento de dança acho que éramos os únicos.

Voltamos à mesa. Reclamei para o Jonas. Nossa, você me abandonou? Sumiu da mesa? Ela olha assustada e percebe que estou brincando. Brinco sério mais uma vez. Ela parece não entender. Falo que é Ela, pois o Jonas é travesti e meu amigo. Conheço o Jonas faz muito tempo e o entendo. Não sei se os presentes pressentem o Jonas. Um batalhador. Mais um trabalhador brasileiro, em busca de sobrevivência. É na verdade Joana à noite. Gosta que os amigos o tratem assim. Traz mais uma? Sussurrei. Mesa arrumada e organizada. Eu para lá de Bagdá. Os cabelos jogados, desarrumados. A vida nas costas. E eu ali. Deixado pela vida, com uma estranha linda. Jogado na lama. Adorando.

Do jeito que veio se foi. Ficou a saudade e, um pouquinho do perfume na roupa, saca? A experiência? Não sei também. O ego tentando crescer e ser alguém, mimado ou não, sofrido ou não. Sempre lembro aquela carinha de interior. O sorriso ingênuo que deixou sementinha de amor. A chuva brota na serra valente e faz as sementinhas de puro amor brotar. A cabeça balança e o coração chora, intensamente. Pensamento voa no vento. A chuva cessa, vem a calmaria. Tudo se acalma. Tô na área. Tô na vida. Vinde a nós indecifráveis amores. Na vitrola, ainda rolava ‘E aquele louco amor? Inesquecível. Tirar do coração é impossível’ (Fevers e a versão Beatles).
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras