Anjos

Por: Eny Miranda

“Ah! Poder reter um minuto mais
As dores que tanto ensinam...
[...]
Reter a luz momentânea que diz
O real valor de tudo
E que se apaga na displicência...”

Regina Helena Bastianini
Ode ao amigo

Quando menina, morávamos em casa pequena, mas com um quintal de muitas árvores e muito chão. Não me lembro de ter tido um quarto, propriamente; também não me lembro de ter sentido falta dele. Uma espécie de saleta estreita, que funcionava como área de circulação e distribuição, nela desembocando a sala, o quarto de meus pais, a cozinha e o banheiro, servia-me de dormitório. Mamãe ajeitara-a de forma a acomodar um divã (“sommier” - como se dizia à época) e uma cômoda. As portas e a janela não deixavam ali espaço para mais nada. Contudo, nas paredes, sempre se encontravam nesgas para fotos antigas, em molduras ovais, ou para quadros de motivo bucólico ou religioso.
Um deles, muito comum àquele tempo, me tranquilizava nas noites de tempestade ou de muito vento, quando, encolhidinha sob as cobertas, imóvel, olhos ora apertados ora arregalados nas profundezas do breu, podia ouvir as rajadas saraivando telhados, paredes, janelas; uivando, submetendo árvores, flagelando o sossego noturno, e - mais do que ouvir - sentir os baques surdos, colossais, do mar desabado sobre a areia, vencido pela revolta das águas. As asas do anjo preso à parede surgiam, então, livres e vivas, nas retinas e no coração, muito brancas, muito abertas, e me acudiam, ajudando-me a atravessar, incólume, a noite, como aos meninos do quadro ajudavam a atravessar, contínua e tranquilamente, a estreita pinguela deitada sobre o rio.
O tempo passou.

Casas, quartos e quadros são outros. Os quintais diminuíram ou desapareceram. Há, nas salas, paredes para muitas telas, bem diferentes daqueles rostos antigos, ovais, e daquelas cenas bucólicas. Os dormitórios infantis são mais ‘intimistas’. As imagens guardadas no coração e nas retinas se escondem sob novas impressões, como palimpsesto vivo. Não desaparecem completamente.

Os Anjos da Guarda, estes, subsistem, persistem, assistem. Basta um chamado nosso, nas situações de travessia difícil, assustadora, dolorosa, e lá estão as asas brancas emergindo, ressurgindo de sob mil camadas, abrindo-se, amplas, como as das borboletas saídas do casulo, chamando o sol. Lá e aqui, protegendo-nos, guiando-nos, desfazendo nossos temores, aliviando-nos as dores do corpo e as angústias da alma.

Sim, é verdade! Eu mesma pude vê-los e receber deles ajuda, diretamente.

Feitos de pele e ossos e músculos; de voz e olhos e mãos; tangíveis, visíveis, audíveis. E de alma e asas -brancas e amplas - perfeitamente sensíveis. Anjos livres de paredes e de molduras, saídos de um espaço onde imagem é ação, vêm ao nosso encontro, amparando-nos, auxiliando-nos a caminhar sobre as pontes estreitas que cruzam os agitados mares da dor e os profundos rios da impossibilidade.
 

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