Parece que foi ontem

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Parece que foi ontem... .

Todo mundo tinha um pingüim em cima da geladeira. A gente visitava os amigos, chegava à casa e era logo conduzido para a cozinha.

- Vem, vamos tomar um café com língua.

O visitante sabia que estavam brincando. Acompanhando o café, vinham o bolo de fubá, a brevidade, o pão-de-queijo, o doce de leite, o doce de cidra... E a gente se regalava sob o olhar gelado de um pingüim, estático sobre a geladeira, vestido como garçom de restaurante chique.

Parece que foi ontem...


Eu entrava na casa de meus pais, e a mãe já pedia:

- Vem cá, passa a linha no buraco da agulha...

Eu repetia a operação meia dúzia de vezes durante a meia hora em que ficava por lá. E a mãe, enquanto falava como camelô, pregava botão, fazia remendos, terminava o vestido da vizinha, começava uma camisa nova para o pai.

Parece que foi ontem...

Trabalhava oito horas diárias, cursava faculdade à noite, lia dois livros por semana, disputava o campeonato varzeano aos domingos. A saúde de ferro nunca enferrujava, jamais reclamava da irregularidade das refeições ricas em arroz e chuchu.

É verdade: parece que foi ontem.

Devo, porém, ter perdido a conta de meses e anos. Possivelmente se passaram cem, duzentos anos e eu não me dei conta. Talvez tenha ficado um tempo desmemoriado. É esta ou outra explicação deve existir.

O certo é que não enxergo mais a máquina de costura da mãe, quanto mais a agulha e a linha.

Praticamente, ninguém visita ninguém. E, se isso acontece, o visitante permanece na sala, oferecem-lhe uma dose de uísque ou de vodca. Muito dificilmente é-lhe oferecido um cafezinho (com língua, é claro). Às vezes, a intimidade leva o visitante até a copa, onde está a geladeira. Ali se confirma o óbvio: não há pingüim em cima do eletrodoméstico.

Não jogo futebol, não estudo, não leio. Engordo num sofá, estrategicamente localizado diante do televisor. Minhas refeições são pesadas, sopesadas, controladas e administradas por uma nutricionista.

Parece que foi ontem...

Só parece.

Em verdade devo ter vivido mais de trezentos anos.

E pior: o tempo passou depressa demais,voou, enquanto meu Pégaso dormia na baia.
 

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