Sexo grátis e novo

Por: Mauro Ferreira

Um arquiteto-humorista escreveu, tempos atrás, que qualquer coisa para chamar a atenção dos leitores deveria conter estas três palavras do título. Pode ser que ele tenha razão, mas o fato é que, em matéria de novidade, nada surpreende mais. Um amigo meu foi abordado por um morador de rua na esquina da Ismael Alonso com Saldanha Marinho. Ao alegar que não tinha dinheiro, recebeu uma provocativa e bem- humorada resposta do pedinte: “aceito cartão”.

Já não bastasse o incômodo e o constrangimento que nos impingem galalaus pintados e de cabeça raspada, alimentados a ovomaltine pedindo dinheiro nos semáforos sabe-se lá pra quê, após aprovados no vestibular das universidades públicas que todos sustentamos, agora tem essa modernidade tecnológica na cidade governada por Sidnei Rocha: pedinte aceitando cartão de crédito. Brincadeira à parte, que o assunto é sério, ouve-se há tempos enfadonho discurso das “otoridades” sobre a mendicância, mas nada acontece. A cada dia aumenta mais o número de pedintes, principalmente jovens, sem contar os que estão vivendo literalmente debaixo das pontes, varridos pela insensibilidade social, ausência de políticas públicas e pelo higienismo autoritário e “fin-de-siècle” do prefeito.

Por falar naquela esquina, onde fica um supermercado famoso, lembrei de uma funcionária antiga que adorava visitá-lo só para tomar cafezinho grátis ou para degustar um iogurte com novo sabor daquela multinacional, ou um daqueles lançamentos, como um bolo feito com soja de sabor intraduzível. Ela topava experimentar qualquer coisa, desde que fosse amostra grátis. Chegou a ganhar um prêmio naqueles sorteios que os supermercados fazem com cupons de notas fiscais, afinal a participação era gratuita.

Noutro dia, encontrei-me com ela na rua e paramos para conversar. Ela me contou de sua nova patroa, que ficava a menos de dez quarteirões de distância de sua casa. Disse que pegava o ônibus na praça do antigo hotel Francano, ia até o terminal, depois subia para a Estação e voltava, descia ali perto do Champagnat. Espantado, perguntei: “mas não dá uma volta muito grande, não compensa ir a pé?” E ela, sem perder a pose: “é, mas o ônibus é de graça, tenho carteirinha porque sou idosa”.

Quando ela falou, lembrei de outra de suas famosas tiradas como usuária de serviços gratuitos. Ela ia a tudo quanto é médico da rede pública, sempre inventava uma doença diferente para um especialista diferente. Todos lhe prescreviam remédios diferentes ao mesmo tempo. Eu perguntava: “não é muito remédio misturado, não fazem mal a sua saúde? “ E ela: “não, eu só pego os remédios, não tomo, não”.

Enfim, nem tudo que é grátis e novo resolve os problemas. Principalmente no setor público, onde faltam recursos e, muitas vezes, acabam desperdiçados por quem não precisa deles até em “esqueletos”. Por isso, melhor ficar só com o sexo.
 

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