As oito pernas da aranha

Por: Everton de Paula

Não me lembro com exatidão a data, mas sei que o que narro passou-se no final da década de 1950. As ruas que ladeiam a Praça João Mendes ainda não eram asfaltadas e a própria praça era um descampado empoeirado. Algumas gramíneas murchas insistiam bravamente ante a gana da molecada que ali jogava, às tardezinhas, suas peladas com bola de meia. O cine Avenida não tinha sido inaugurado e nem haviam erguido o monumento a Padre Anchieta, no início da Avenida Presidente Vargas. Lugar ideal para pequenos circos e parques paupérrimos.

Ainda muito distantes de toda e qualquer diversão eletrônica, internet, celulares, laptopes, videogames, nós, crianças do bairro, distraíamos-nos com as próprias invenções carrinhos de rolimã, pipas, jogos de botão, unha-na-mula, bolinhas de gude, pião... De sorte que quando o perna-de-pau anunciava as atrações de um circo ou um parque, ficávamos assanhadíssimos, atormentando a mãe para que o pai arranjasse lá um dinheirinho para o ingresso.

Na realidade, o que íamos ver nessa época era um misto de parque e circo. Sob a lona esburacada alguns míseros espetáculos de malabarismo e desfile de uns inofensivos, magérrimos e banguelas leões meio cegos e algumas balzaquianas de pernas de fora. Hoje, pensando bem, mais poderia se chamar aquilo de trem fantasma ou túnel do terror. Mas enganava bem a molecada que estava mesmo a fim de coisas diferentes. E o que se anunciava de diferente e de espantoso estava fora da lona, fora do picadeiro; estava nas barracas ao lado do circo. Aliás, uma única barraca diante da qual se formavam filas de entortar o quarteirão. Era a barraca da mulher-aranha. Diziam ser uma cigana, muito jovem e bonita que, tendo sido abandonada pelos pais e, mais tarde, traída pelo marido, tentou suicidar-se engolindo vivas várias aranhas venenosas. Mas o efeito fora inesperado: em vez da morte abençoada veio-lhe a maldição de, nas noites de lua cheia, transformar-se numa aranha de proporções meio humanas meio aracnídeas.

Diziam mais: que ela se apresentava, antes da transformação fantástica, como uma moça normal, belíssima, com trajes sumaríssimos, deixando à mostra pernas suculentas e decote de provocar suspiros, tentações e sonhos inatingíveis. Talvez fosse a melhor parte da apresentação, porque o resto era puro horror de terceira classe, um sofrível jogo de espelhos e iluminação que transformava aquela deusa em horripilante aranha de oito pernas compridas, cabeludas e ameaçadoras.

Está certo que nós, crianças de oito, nove anos, já andávamos no estágio inicial de interesse pelas formas femininas; mas antes da sensualidade, pairava em nossas mentes o enorme bicho que se apresentaria quase ao alcance de nossas mãos.

Mal nos aguentávamos na fila.

O que ninguém sabia, pelo menos naquela noite fria de lua cheia, era que a bela cigana havia fugido com o palhaço Chulé. E o dono do circo e das barracas não queria nem pensava em dispensar aquela multidão ansiosa pela mulher-aranha. Como arranjar uma substituta à altura? E foi exatamente esta palavra “altura” que levou o dono do circo a uma solução: colocar o anão no lugar da cigana, já que ele é que havia ensinado o truque do espelho e da transformação ilusória.

Quando o anão, assim de repente, recebeu a ordem, já veio com um choramingo próprio de quem se toma como bucha de canhão para qualquer tiro: “Ah, não, nem vem que não tem! Eu já limpo bosta de macaco, de leão; despejo e lavo penicos de gente; sou eu que limpo as porcarias da serragem do picadeiro tudo o que ninguém quer fazer aqui sobra pra mim, só porque não sou gente completa, só porque eu sou anão! Não, não, não vou ser mulher-aranha nem aqui nem na Coréia!”

Foi com esse diálogo (claro, seguido de uma ameaça de demissão) que o anão foi, com uma espalhafatosa peruca loira e as faces com a barba por fazer, substituir a cigana.

Mas nós, que pagamos o ingresso, nem imaginávamos que isto estivesse ocorrendo. Entramos na barraca, ficamos na pontinha dos pés enquanto as lâmpadas suspensas foram se apagando, uma a uma, deixando tênue claridade sobre um minúsculo palco.

Suspense: enfim pernas, decotes, beleza cigana e a temida transformação às nossas vistas.

Que decepção! Acho até que o pobre anão fizera aquilo de propósito: a peruca desmanchava emaranhando-se nos pelos da barba por fazer; a cabeça desproporcional em face de pernas tortas e curtíssimas, cabeludas; a barriga saliente chamava a atenção geral pelo umbigo, assemelhando-se a algo que nos fazia perguntar se era barriga ou se eram as nádegas de uma só banda... Querem mais? O anão estava bêbado! Sentia-se o bafo de cachaça ao longe! E ele ria... Ria, não, gargalhava. Mistura de gente e bicho que deveria acontecer por meio de truques, e não em carne viva. A pequena plateia virava o rosto com asco, mas ainda teimando em querer ver, de esguelha, a transformação anunciada, que veio aos poucos, transformando as pernas e braços diminutos em oito coisas pateticamente ameaçadoras. Só que o anão, de tanto rir, caiu do tablado falso que se armava por trás dos espelhos angulares. Caiu para frente, aos nossos pés, de modo a formar no piso de terra um amontoado de ser vivo indescritível, e que ensanguentava por ter-s
e cortado nos afiados estilhaços de espelhos que se quebraram com a queda do pobre anão. Uma cena inenarrável que fez mocinhas e guris saírem correndo aos gritos, a cabana vindo abaixo...

Os que esperavam sua vez na fila, sem saber o que estava acontecendo sob os pedaços de pano e pau da barraca, engoliram seco e se disseram: “Rapaz, esse espetáculo deve valer a pena! Não arredo o pé! A cigana deve ser fenomenal!” E a fila triplicou de tamanho... O dono do circo ficou imaginando como o episódio poderia favorecê-lo.

Não me lembro como terminou a história nem se isto foi transcrito no jornal da época. Sei apenas que, meses depois, o mesmo circo se apresentava no mesmo lugar com uma atração imperdível anunciada aos quatro cantos da cidade pelo perna-de-pau: “NÃO PERCAM: O INCRÍVEL ANÃO DE BERLIM!” Com certeza, era a repetição da cena patética a que nós assistimos, talvez um pouco melhorada e ensaiada: um anão que quase virava aranha e que provocava um misto de pavor e comédia.

No fim das contas, o limpador de bostas de feras enjauladas tornara-se a principal atração do circo e o artista mais bem pago pela produção. Dizem até que uma bela cigana se encantara por ele e que os dois haviam se casado... Será?
 

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