‘Eu era infeliz e não sabia’

Por: Maria Luiza Salomão

Ouvi esta expressão “eu era infeliz e não sabia” de uma paciente. Sessão fértil (às vezes é preciso ter muitas, em largo período de tempo, para alcançar uma), prenhe de luzes de compreensão emocional. Ela inverteu a expressão “eu era feliz e não sabia”, no contexto de nossa conversa.

No convívio comigo, na sua análise, relata vivências de aspectos seus e do Mundo que desconhecia até então. Há um lamento pelo “tempo perdido”, mas com bom humor suficiente para saudar o “tempo recuperado” (Proust).

Assim vejo o que a Psicanálise oferece às pessoas que abrem um espaço e um tempo para se conhecerem mais funda e verdadeiramente.

Quanto se ignora sobre as oportunidades e possibilidades que se abrem para a Vida! Quanta alma sub-”traímos” ao renegar trilhas novas oferecidas pelo Outro (que ainda não conhecemos bem), ou ao recusar pequenos prazeres como se não os merecêssemos, ou sem saber o quanto necessitávamos deles. Ao tentar evitar a dor, ou o conflito, quantas parcelas do viver recusadas? Quantos capítulos brancos em extensos períodos de tempo, tentando evitar a Dor? O passado pode ser re-escrito quando o futuro se torna possibilidade, oportunidade.

Ao negar o porvir, o “incerto caminho”, como disse Tânia Liporoni sábado p.p., temos apenas a Mesmice. Talvez a felicidade esteja nesta consciência fugidia da impossibilidade de permanecermos eternamente os mesmos. Anthony Hopkins, no filme “A Terra das Sombras”, que vi no TeleCine, faz o papel de um eminente professor em uma Universidade da Inglaterra, que se recusava a sair de uma rotina de solteirão, impedindo-se de amar. Descobri muitas reflexões interessantes deste Prof. Lewis, que já morreu, na Internet. Uma delas: “existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás.”

Demanda coragem levantar a âncora do passado, ou dos passados, e romper com empedernidas convicções. Enfrentar o desafio ao desconhecido compensa amplia as capacidades, até a de sofrer angústia, suportar a Dor, tolerar ambiguidades. Habilidades fundamentais para outras mais amáveis tipo: Amar, conviver com os pares, crescer mental e espiritualmente.

“Em time que está ganhando não se mexe?” Ou, ao contrário, segundo a citação no filme “O Leopardo”, 1963, baseado no romance de Giusepe Tomasi di Lampadusa, “para permanecermos os mesmos temos que mudar?”

Há questões que são puramente teóricas. Para descobrir o essencial é preciso trabalhar a pedra dura, romper invólucros, desvelar palimpsestos, atravessar metáforas, dar forma aos sentidos, reuni-los em rede para captar o cerne duro do que somos. Esculpir, livrar o Ser do contingente, do supérfluo.

Arriscar seguir a simplicidade sofisticada de Michelangelo, que dava o caminho das pedras: “para esculpir um elefante é só retirar da pedra tudo o que não é elefante”.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras