Sombras e luzes

Por: Eny Miranda

Tudo começou com uma mensagem de minha neta. Chegou via e-mail: “Não perca este espetáculo, vovó. Soube que será lindo!”

Aconteceria ao anoitecer, e haveria nele um detalhe, para mim, instigante: não o presenciaríamos desde o seu início, mas desde o seu fim.

Por volta das 17h40, pusemo-nos, Dario e eu, de plantão, na janela do quarto que se abre para o Leste -ponto onde o fenômeno deveria ocorrer. Por longo tempo (digo longo, tomando como medida nosso grau de ansiedade), nada se desenhou, naquele vão, além de um límpido crepúsculo, entre o cobalto e o marinho em via de abismar-se. Achamos que o esperado já tivesse acontecido. Mas onde, então, estaria o protagonista, o principal astro da noite, se não o podíamos ver?

Resolvemos procurá-lo fora daquela moldura, buscá-lo em outros quadrantes do céu francano: a partir da sacadinha, voltada para o Norte; da janela aberta para o Nordeste; da varanda, de onde se descortinam os pores-do-sol...

E nada...

Surgiam as primeiras estrelas.

Voltando, então, ao quarto do nascente, antes mesmo de lá entrar, tateando, ainda, à sua porta (a penumbra já invadira a casa), vi algo absolutamente espantoso, surreal: um enorme círculo de sombra, distinguível apenas pelo discreto, fino halo amarelado, que o contornava, surgia por trás dos telhados vizinhos; erguia-se, horizonte acima, tomando quase todo o espaço aberto da janela. Na parte inferior, um ponto de prata polida, extremamente brilhante, parecia soprar luz no interior daquele gigantesco balão. Em um relance, vi os junhos da infância, com seus imensos balões de papel de seda, carregando em seu bojo ameaças e alumbramentos. Aqui - o ponto luminoso ampliando-se e insuflando, ao mesmo tempo, e cada vez mais, luz na esfera - só o deslumbramento se elevava, lentamente. Desgarrando-se do chão, mergulhava, pouco a pouco, no azul profundo, oceânico.

A Lua!

Nascera fim de espetáculo, cortina cerrada, apagar de luzes, e, noite adentro, claridade a fora, subia no horizonte, protagonizando outro espetáculo, ao desvestir-se, paulatinamente, da sombra, prateando-se, iluminando-se, a(s)cendendo possibilidades. E depois, bem acima do ponto em que surgira, assumindo sua condição especular plena: Lua Cheia de certezas e de sol, em noite fria de junho.

Pensei no quão alegórica pode ser a história, ou a trajetória, de um eclipse, principalmente, deste último, a que tive o privilégio de assistir: o nascer na sombra e o dela sair, em movimento ascensional. Erguendo-se sempre, conquistar e refletir luz, ser luz e partilhar, com os que ficaram na treva, a luz conquistada.

Lembra-me, de alguma forma, a Alegoria da Caverna, de Platão. Lembra-me, de muitas formas, os que se dedicam à reflexão, à conquista, e ao compartilhamento do saber; os que, reconhecendo o valor do conhecimento, renunciam à sombra, desgarram-se das trevas da ignorância, erguem-se, iluminam-se, e ajudam a iluminar a noite de tantos outros.

O fenômeno durou cerca de uma hora, mas poderia durar muito mais. O frio estava de congelar corpos, mas a visão foi de incendiar almas.
 

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