Noite de São João

Por: José Borges da Silva

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Do quintal de nossa casa ficávamos horas e horas vendo o trator, indo de um lado para outro, transformando o cerrado e suas várias tonalidades de verde em uma plataforma marrom. Nossa casa ficava praticamente no fim da cidade. Pouco abaixo havia um pasto e, ao fundo, um pequeno vale e um córrego de águas límpidas que deslizavam entre angélicas, taboas, agriões bravos e outras ramagens. A fazenda ficava bem em frente ao nosso bairro, do outro lado do córrego. Caía a noite e o trator lá permanecia, pontinho de luz persistente, indo e voltando, de um lado para o outro, corajosamente enfrentando a escuridão.

Passados alguns dias a planície começava a mudar de cor. Primeiro o marrom ganhava tons mais claros. Depois, ia ficando esverdeado e já podíamos divisar finíssimas linhas surgirem e irem engrossando, até que toda a plataforma se tornava um imenso tapete verde escuro. Algumas semanas mais e tudo começava a amarelar e ia amarelando, amarelando, até ficar da cor da palha, da palha do milho, que enfim era colhido.

E então chegava junho e havia um clima festivo no ar. Novenas, terços e rezas todas as noites movimentavam a vizinhança. A festa de São João era o evento mais esperado, porque havia fogueira, danças e comida típica, muita e variada. Havia uma alegria espontânea nas pessoas e especial magia naquela noite que acendia a imaginação infantil. As músicas enfatizavam belezas que normalmente não víamos nas noites frias de inverno: “Chegou a hora da fogueira; é noite de São João; o céu fica todo iluminado, fica todo estrelado, pintadinho de balão”. Naqueles tempos não havia cercas nem limites entre os quintais. A festa se realizava entre as casas e dela participava toda a vizinhança. Na véspera de São João, logo pela manhã, as mulheres varriam o terreiro e o salpicavam de água, para apagar a poeira. Os homens começavam a armar a fogueira. Sobre o terreiro amarravam cordões com bandeirolas coloridas. Santo Antônio, São João e São Pedro a tudo observavam, desde o alto de seus mastros erguidos nos quintais. À tardinha já dava para sentir cheiro de bolo, de amendoim torrado, impregnando o ar. Quando a noite vinha chegando e com ela o frio, a fogueira era acesa. E a molecada se ajuntava à sua volta. Sobre as mesas postas no quintal as mulheres iam depositando os quitutes: bolo de fubá, broas, pipoca, pé-de-moleque, chás, quentão. E ao lado do bule de quentão, sempre uma mãe posicionada, para afastar dele as crianças.

Por volta das oito da noite chegavam os “tocadores” com seus instrumentos. O homem do trator tocava violão. Um vizinho da rua de cima, acordeão. Outro, da rua de baixo, o pandeiro... Mal iniciavam a música e os casais já rodopiavam pelo terreiro. Depois de uma pausa para a ceia, tinha início a dança da quadrilha.

Quando a fogueira começava a baixar, sempre surgia o Silvino, de pés descalços, calça arregaçada até as canelas, e atravessava ligeiro sobre o braseiro vivo. Era momento culminante para a molecada, que se assombrava com a façanha daquele homem franzino e misterioso, que por lá aparecia apenas nessas ocasiões.

E quando a noite avançava e o frio voltava a fustigar, íamos dormir. Mas a música prosseguia ao longe: “Com a filha de João, Antônio ia se casar; mas Pedro fugiu com a noiva...” Mesmo depois que a festa acabava ela persistia ecoando em nossas mentes, iluminadas pela magia dos acordes e enfeitadas pelas cores vivas da imaginação de meninos: “Pula a fogueira Iá Iá, pula a fogueira Iô Iô...”
 

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