Flor de São João

Por: Marina Garcia Garcia

Como labaredas, enroscando-se nas folhagens, subiam tentando alcançar a copa da árvore. A cor tão intensa, naquela hora do dia, chamou-me a atenção. Parei para observar. Pensei na sabedoria da natureza que, sem ter um calendário, aprontava para o mês de junho aquele formidável pé de flor de São João. Assim espontânea e singela decorava a paisagem da cidade indiferente.

As lembranças abotoaram inevitavelmente. Corcoveando ligeiro, o tempo foi se aproximando da época da infância quando, em bando ruidoso, colhíamos estas flores e levávamos para enfeitar a bandeira dos santos do mês. Quase todas as casas da vila erguiam as bandeiras. Juntavam-se os vizinhos e parentes para rezar o terço. Nós estávamos mais interessados era nas guloseimas: pipoca, amendoim, bolo de fubá, etc. e tal. Ficávamos aflitos para acabar a reza, ríamos de tudo e sempre escorregava um beliscão dos mais velhos. Os quintais enormes tinham uma fogueira e ganhávamos estrelinhas, fósforos-de-cor, estalinhos para nos divertirmos. Foguetes só os adultos soltavam. As noites frias eram aquecidas por chocolate quente, quentão e muito, muito calor humano.

Em nossa região, estas festas têm se tornado cada vez mais raras. Pela televisão vejo que no Nordeste elas ainda persistem e ganharam status de espetáculo promovendo turismo, lucro...

Ai que saudade daquela época despretensiosa!

Tomara, flor de São João, que você consiga tocar o alto desta árvore e possamos fazer o caminho inverso e atingir nossas raízes, o âmago, nossa essência...

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