Viagens pela memória

Por: Mauro Ferreira

Em meados dos anos 70, às sextas-feiras havia uma mesa cativa no restaurante Barão (esse tal de happy hour é coisa antiga) ocupado por um grupo da Associação de Engenheiros e Arquitetos. Éramos poucos, eu era o mais jovem do grupo, ainda tinha cabelos e cara de comunista ou roqueiro brasileiro. Tinha o Ary e o Ruy Balieiro, o Naná e o Saulo Figueiredo, os Paulos (França e Nehemy), o Vital e o Bichuette.

Certa vez, o Ruy disse uma frase que a memória (já não tão boa) não olvidou, que entramos num carro e confiamos na máquina, pegamos uma estrada sem saber se vamos chegar ao destino, ao final da viagem. Ou seja, nossas vidas dependem de uma máquina que a qualquer momento pode dar um defeito letal.

Por isso me lembrei da camioneta Jangada fabricada pela Chambord, que meu pai teve nos anos 1960. Ela vivia consertando no Luisinho da Simca, os carros europeus não agüentavam o tranco das nossas estradas. Viajei no porta-malas da Jangada para assistir a um jogo da Prudentina contra o Botafogo em Ribeirão Preto, no velho estádio da Vila Tibério.

Naquela época, o caminho era a estrada velha de terra para Batatais, o asfalto só existia a partir do rio Sapucaí, era pó ou lama, mas ver um jogo da Prudentina valia o sacrifício. O Boca da Noite (o Armandinho Melani), que trabalhava com meu pai, foi dirigindo e levou a namorada, a Rita. Na hora do jogo, sentamos atrás de um dos gols, cercados pela massa botafoguense. A arquibancada era toda de madeira, um perigo inacreditável hoje, nos tempos do Estatuto do Torcedor. O pior era ter que ficar quieto a cada ataque da Prudentina. No primeiro tempo, empate em 1x1. No segundo, o Botafogo virou para 2x1, os tricolores de Prudente foram buscar e viraram o jogo, 3x2, no fim o Pantera da Mogiana empatou, 3x3. Para mim, foi como se tivéssemos ganhado o jogo, uma alegria imensa. E tome poeira na volta, ainda bem que o carro não quebrou daquela vez.

Anos depois, em 1981, fui em ótima companhia assistir o show Realce do Gilberto Gil em Ribeirão Preto (com Atalie, a professora de artes Maria Zélia e o pintor Ricardo Augusto). Próximos a Batatais, minha Brasília vermelha começou a esquentar e ameaçou parar de vez, tive que entrar num posto para consertar a rebiboca da parafuseta, nem lembro mais o defeito que deu. Para examinar por baixo o carro, o mecânico subiu-o num estrado, ao lado de uma capelinha minúscula. Acho que era para rezar que o conserto desse certo. Deu. Balançamos o esqueleto com Gil a noite toda e voltamos dentro da noite veloz, como disse o poeta.

Outro dia, vi que o posto se modernizou. Mas a velha capelinha continua lá, a proteger os viajantes que colocam suas vidas frágeis nas mãos de uma máquina imperfeita dirigida por humanos mais ainda.

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