Fuscas & Cachorros

Por: Maria Luiza Salomão

Achei divertido chegar à cidadezinha escolhida para uns dias de férias e ver que ela se denomina “A capital dos fuscas”. E comecei a prestar atenção de forasteira ao movimento dos carros. Vi um mundaréu de fuscas de todas as cores, arrebentadinhos e novinhos, 68, 69, de várias idades. E lá, nas estradas de terra que percorri entre o mar de morros entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira, ele dava de 10x0 no carro tecnológico que nos guiou até lá. Até fomos ver se não havia algum fusquinha para alugar.

Lembrei de um fusquinha azulinho do meu pai. Depois um branco da minha mãe, e, enfim, de um fusca do qual tive que me separar, não sem muita tristeza, um amarelo-mostarda, com direção esportiva, câmbio idem, um carrinho tipo de corrida. Mas fusca, de coração!

Ainda com olhar de forasteira, descobri uma enormidade de cachorros, de todos os tipos, a circular na cidade, pretos, marrons, caramelos em vários tons, baixinhos, grandes, ossudos e rechonchudos. A Prefeitura anda preocupada com tanto cachorro andando por Cunha. E pelas serras, acompanhando cavaleiros e também nas fazendas e sítios, pousadas.

Estou falando de uma cidade-ilha no meio das serras que ondeiam em tonalidades esverdeadas, onde as árvores parecem corais no fundo do oceano, onde a relva, as plantações entre amarelo-esverdeado e verde-amarelado, até verde escuro quase preto. Largas curvas e concavidades como que desenhadas por um artista. Relevos que, com um pouquinho de imaginação, identificamos aos vídeos azulados dos mergulhadores no fundo do mar.

O mar, em Cunha, é de morros, e os bichos pequeninos que vemos de longe são vacas, cabras. Pontinhos marrons e brancos no sempre verde ondulado.

Ali o tempo escoa lento e quieto, como em um mergulho no fundo do rio. Do cimo de uma serra, acordei em uma segunda-feira muito fria desta semana, envolta em branco, o mundo todo estava nas nuvens, ou as nuvens desceram todas do céu. Sei que nada sabia ainda das serras que cavalguei no meu alazão negro ao chegar na pousada, no crepúsculo de domingo.

Nesta primeira manhã, fui acompanhando as nuvens, que se dispersaram devagar, o frio foi apertando...e apareceu o mar de morros. Senti, como Jobim, “ai que lindo o meu Brasil!”. Meu olhar só via morros. Do lado de lá daquela cadeia grande de Serras, lá no infinito, o grande mundo de Minas. Do lado de cá, onde o sol nasce, detrás de mais morros e morrinhos, a Serra do Mar.

Eu no centro do observatório - entre o mar de morros que levam ao SERTÃO, e o mar de morros que levam ao MAR. Que estupendo!

Meu nobre alazão foi tão pouco eficiente quanto Golias, o gigante, perto de David, o ágil e esperto. Depois de tudo, entendi, afinal, o orgulho pelo fusquinha, ele anda de lá para cá com desenvoltura e agilidade, é o carro certo para o lugar.

Se o fusca nasceu em outras paragens, aqui, neste lugar, ele é bem brasileiro. Nada feito peixe no mar de morros. Um bichinho colorido e ruidoso no meio de tanto verde pacífico e acolhedor.

Em Cunha o mar é o sertão.

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