Memória viva

Por: Eny Miranda

“Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que
ela produz na alma
dos homens.
Quem é possuído por ela entra em êxtase:
cessa o riso, cessa o choro,
o pensamento para,
a fala emudece”.

Rubem Alves
Um céu numa flor silvestre


Quem nos ensina a perceber o Belo? A ver o céu numa flor silvestre? Qual o emissário da real “beleza dádiva dos deuses”: a sensibilidade?

Meu coração, tantas vezes, conheceu o êxtase à vista de flores. Nem sempre de flores provindas do campo, as nativas, que medram livres entre regatos e árvores, mas de flores urbanas, as cativas, que nascem asfixiadas entre pedras e asfalto, e em que só a sensibilidade pode pressentir os campos naturais. Flores cuja essência se foi depurando, pouco a pouco, por mestres no minucioso trabalho de ourivesaria anímica, lavra de percepções, amoroso modelar de espírito - labor inefável que transcende seiva e células, e que se multiparte e se exterioriza em acetinadas pétalas verbo, versos, cores, notas, canto... coro de anjos terrenos, ecoando, refletindo, repartindo sóis, como gotículas de chuva e(s)coam, refletem, repartem luz.

Beleza mística.

Assim, os canteiros cultivados pelo maestro Heitor Geraldo Magella Combat, jardineiro de almas canoras, que agora nos deixa órfãos, mas plenos, porque possuídos da Beleza, dádiva de seu laborioso amor.

Hoje, em mil corações cassienses, nativos ou não, “cessa o riso, cessa o choro, o pensamento para, / a fala emudece”.

Memória viva.

No céu, vozes entoam cores de sol milpartido. Do mestre Combat, “a alma está tomada pela felicidade / da tranquilidade absoluta”, ao final de uma vida de minucioso e grandioso trabalho.

E o Criador, contemplando as flores urbanas do maestro, e sua essência, cujos ecos ascendem ao Éter, lembra a Rubem Alves:

‘Está muito bom! / Do jeito que deveria ser! / Nada há de ser modificado!

Amém!’

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