Sábado à noite

Por: Lívia da Silva Inácio

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Cinderela reclamou indignada:

- Tenho um belo vestido, uma bela carruagem, um belo sapato, mas o que vou fazer se não tenho ingressos pra entrar no baile?

- Ah, se vire, meu bem! - Retrucou a madrasta entrando numa nuvem de estrelinhas - Eu fiz o que pude.

- Mas...

- O encanto acaba à meia-noite, filha! Boa sorte! - Lembrou a fada enquanto partia.

Sem rumo, a pobre moça saiu toda pomposa pelas ruas em sua carruagem. Por onde passava, recebia cantadas ridículas e caminhava irritada. Rodava todo o reino, mas não sabia o que fazer. Foi então que encontrou um salão com os muros coloridos e uma placa bem iluminada. ‘Baile Forró Beleza: O Arrasta-pé que só tem filé - Mulher até meia-noite entra de graça’.

Cinderela correu para perto da luminária e gritou ao cocheiro:

- Me busque à meia-noite!

- À meia-noite eu já serei pombo de novo!

- Então venha às onze e meia?

- Tudo bem. - E correu conduzindo os cavalos.

Cinderela conseguiu entrar no Baile Forró Beleza. Olhou o relógio: 21h30. Um lugar escuro, com luzes vermelhas e azuis iluminando uma gente mal encarada. Mulheres com vestidos curtos empurravam a moça perdida. Então, ela tropeçou no próprio vestido e caiu aos pés de um sanfoneiro. O sanfoneiro, por sua vez, lançou-lhe uma piscadela e Cinderela se reergueu e ficou parada na porta de um banheiro até um sujeito bonito do sorriso malandro chamá-la para dançar.

- Perdida por aqui?

- É. E você?

- Estava perdido, até me encontrar na pureza dos seus olhos de cristal.

- De cristal aqui é só o meu sapato.

O sujeito sorriu.

- Dança comigo?

- Eu não sei.

- Claro que sabe, gatinha. - E puxou-a pelas mãos, conduzindo a dança ao ritmo do forró que tocavam no palco. A música era ‘Paixão Bacana’.

Cinderela disse seu nome. O sujeito também se apresentou.

Ele parecia meio bêbado. Ela nem ligou e até pensou estar se apaixonando. Os dois dançaram até a meia-noite. Quando viu que horas eram, a moça correu sem dar explicações ao sujeito. Deixou seus dois sapatinhos caírem na porta do salão e chorou durante toda a madrugada por medo de não ver seu amado nunca mais.

Na manhã seguinte, enquanto Cinderela limpava a poltrona de sua madrasta, alguém bateu à porta. A jovem, na condição de serviçal, foi atender e se surpreendeu ao ver quem estava ali. Era ele! O moço do baile. Ele trazia os dois sapatos de cristal perdidos ao fim da festa. Cinderela abriu um sorriso:

- Olá!

- Aê, não tá a fim de comprar sapato, não? Achei esse aqui na rua e se te servir eu faço por 30 pratas.

- Ta falando sério?

- Serião, moça! Tô precisando descolar uma grana.

- Mas esse sapato é meu!

- Ta querendo me enrolar, né? Aê, se eu pudesse, até te daria, mas tô precisando vender, tá ligada?

- Hum...

- Vai querer?

- Não. Passa outro dia.

- 20 pratas. É pegar ou largar.

- Não.

- Olha, aproveita. Não é todo dia que uma moça pobre pode comprar um sapato de cristal nesse preço.

- Não quero.

- Ô, eu te faço por...

- Cinderela bateu a porta na cara do sujeito. Acabara de descobrir que a vida não era um conto de fadas.

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