Irmandade

Por: Cleria Bittar Pucci Bueno

Tentei imaginar minha vida sem meus irmãos. O que seria de mim? Um deserto inóspito. Mas até mesmo os desertos ocultam belezas, vida e mistério, lugar de encontro e de equilíbrio espiritual. Então o deserto não serve de metáfora para ilustrar o que eu seria sem meus irmãos. Seria estéril como a figueira condenada no Novo Testamento. É isso que seria: uma figueira estéril, sem vida, sem brilho, sem promessa. Um irmão é mais que o mesmo sangue correndo nas veias, é mais que a afinidade de pessoas nascidas num mesmo lar que abriga almas tão semelhantes quanto distintas. Um irmão é a nossa própria existência espelhada naquele rosto que pode ou não conter nossos traços, mas que inevitavelmente nos remete a nós mesmos. Um irmão é a certeza da lucidez, quando a dor desatina, quando a vida reclama juros ou quando a esperança deixa de ser nossa conselheira. São eles que nos asseguram que cada um de nós é uma conta no colar de pérolas, e que todos emprestam sua beleza a esta jóia, que estaria comprometida em seu valor,
se algumas de suas ‘contas’ se perdesse. Um irmão está sempre ‘lá’ onde deveria estar, antes mesmo que déssemos falta do essencial para nosso bem estar espiritual ou psíquico. Quando chegamos extasiados ou fatigados, surdos ou oprimidos, são suas mãos que nos apóiam, que nos consolam ou nos chacoalham. São suas vozes que nos acalmam, nos orientam e nos guiam. É em seus braços e abraços que perdemos a noção do tempo e voltamos a reinar como crianças. Sendo a mais velha de quatro filhos, a mandona e cheia-de-razão, guardo a certeza que deles mais recebi que ofertei. Sem eles eu não seria esta criatura que busca a transformação, como a lagarta na crisálida que almeja a borboleta. Um irmão é um porto seguro, ainda que esteja, de fato, no mesmo barco a deriva conosco. Sabê-lo ao nosso lado é o suficiente para nos enchermos de coragem e manter o leme em prumo. Há uma cena lindíssima num filme chamado “Uma janela para a lua”. Seu protagonista é um cientista bem sucedido, porém mais uma vítima estressada pelo estilo de vida da cidade grande. Um dia recebe uma herança e tem que voltar para seu povoado depois de anos de ausência, e enquanto revisita os lugares onde costumava ir, depara-se com um velho carro que pertencera à sua família. Conduzindo-o pela bucólica estrada do interior da Itália, ao ajeitar o retrovisor vê a si mesmo refletido no banco traseiro, mas se vê menino. Nesse instante ele volta sua face para trás para encontrar aquele menino que fora. Ele precisou olhar pelo retrovisor para descobrir-se e continuar sua trajetória. A metáfora é lindíssima e eu a tomo emprestado. A presença de meus irmãos em mim é o que me faz olhar o passado, de onde tiro força e inspiração para viver o presente, almejando, sempre junto deles, fazer o amanhã.

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