O Castelo do Homem sem Alma

Por: Sônia Machiavelli

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Recebi no dia 18 de junho, na Câmara Municipal de Franca, a Medalha de Mérito Literário “Luiz Cruz de Oliveira”. Foi ocasião de pôr coração à prova, tantas emoções me inundaram. Uma delas, assistir ao vídeo produzido por Maurício Buffa e Vandinha Garcia. Nele - entre muitos queridos - a amiga Rita Liporoni lembrou-se da grande biblioteca do antigo IEETC onde nos abastecíamos de livros - passaportes para singrar mares nunca dantes navegados. Tínhamos treze anos, mais ou menos, quando começamos a ler Cronin. Rita recuperou o fato de que eu havia ficado então muito impressionada com O castelo do homem sem alma. Desde então, lá se vão duas semanas, fui abordada várias vezes por amigos que querem saber que livro e escritor eram esses. Sobre o autor, há informações no box ao lado.

Quanto ao romance, pois pertencia a este gênero o título, foi lido por milhões no mundo inteiro, dadas as suas muitas traduções e a capacidade do autor de emocionar públicos de diferentes faixas etárias. Para o português, quem fez a primeira versão foi a grande Rachel de Queiroz. A história é tão impactante que virou filme, com a famosa Deborah Kerr, que outra Rita, a Lee, até já reverenciou em uma de suas músicas. Mas o par de Deborah na história não era o Gregory Peck citado pela roqueira, e sim outro ator célebre em sua época, James Mason.

A narrativa de Cronin chamava-se no original Hatter´s Castle, porque o morador era chapeleiro; daí, o castelo do chapeleiro. A cidadezinha do interior da Escócia onde os fatos se desenrolavam era Levenford. No castelo morava a família Brodie, composta pelos pais, três filhos adolescentes e a velha mãe do chefe da família, o arrogante, frio, egoísta, mesquinho e insuportável Mr. Brodie, James para os íntimos. Este personagem hoje seria certamente chamado de psicopata, tais as crueldades que impunha com absoluta indiferença a todos que com ele conviviam, ou seja, praticamente apenas sua família.

O desalmado que inspirou Rachel de Queiroz no título, quando instada pela editora a mudar o original, pertencia a um tipo não muito raro, que a gente encontra ainda com frequência: aquele para quem ninguém presta, todo mundo tem os piores defeitos, só o próprio escapa da ruindade do gênero humano. Uma das primeiras frases definidoras do perfil do chapeleiro aparece já no começo da história e será muito repetida por ele para os filhos Matt, Mary e Nessie, ao longo dos capítulos: “Não se misturem com os outros.”

São mais de 400 páginas de drama familiar, de desajuste em relação ao meio social, de frustrações, de amores contrariados, principalmente de total incapacidade do vilão em entender que filhos pensam de forma diferente de pais e precisam ser respeitados. A competência do escritor em erguer criaturas de sangue e nervos , que pulsam vida em cada página, tinha na experiência profissional um elemento importante. Médico com especialização em cirurgia, de sensibilidade aguçada e percepção incomum para captar estados de espírito, havia sofrido tanto diante das dores físicas e psíquicas de seus pacientes, que tivera a própria saúde abalada depois de uma década de carreira. Ao levar essas dores para as páginas da sua primeira história, e de muitas outras que contaria depois, conferiu-lhes um traço genuíno. Ele não criava aqueles seres e situações apenas com sua capacidade de efabulação, que era inegavelmente grande. Para tocar tão fundo seus leitores, o que acontece até hoje, teria sido necessário sentir compaixão por pessoas em suas agruras. Ao captar a essência dos tipos humanos e as situações geradas pela maldade do chefe sobre a família submissa, Cronin criou uma história que pode ser lida ainda hoje com o mesmo interesse. Tirania e submissão convivem de forma parecida em qualquer latitude. Em geral, começa na família, tema eterno.

O estilo de Cronin define-se por um certo preciosismo que não compromete a trama, antes acentua o peso imposto pelo vilão aos que dele dependem para sobreviver. Sua frase é longa, repleta de detalhes, e a observação da realidade e do mundo psíquico ganha corpo no encadeamento de muitas orações coordenadas. O forte poder de descrição garante a plasticidade de páginas inesquecíveis. Publicado em 1941, antes da Segunda Grande Guerra, o livro inova no final, contrariando uma certa tendência dos romances europeus do período. O happy end começava a desaparecer da cena romanesca.


MÉDICO E ESCRITOR

A. J. Cronin

O nome completo era Archibald Joseph Cronin e sua nacionalidade, escocesa. Perdeu o pai quando criança. Como a mãe não conseguisse sobreviver sozinha, voltou à casa dos pais dois anos depois de enviuvar. Bom aluno, ajudado financeiramente por um tio, Cronin forma-se médico em 1919 e serve como cirurgião na Primeira Guerra a bordo do Royal Navy. Com o fim do conflito passa a atender em consultório no País de Gales, para onde se muda depois de casado. Nomeado Inspetor Médico de Minas começa a fazer um estudo detalhado das doenças que afetam os trabalhadores de minas de carvão. As condições precárias do lugar e de seus pacientes o abalam e sua saúde se ressente. Ele é obrigado a deixar o trabalho e se retirar para as montanhas a fim de se tratar. É nesse período que começa a escrever o livro resenhado ao lado, sucesso imediato de público. Seu segundo romance, Sob a luz das estrelas, é vendido a um grande estúdio de cinema. O terceiro, A cidadela, alcança êxito retumbante e Cronin renuncia à medicina, passando a viver de sua produção literária. Com a eclosão da Segunda Guerra, muda-se com a família para os EUA, pois se tornara vítima da perseguição dos alemães. Terminada a guerra, escolhe a Suíça para domicílio e ali vive em Montreux até o fim de seus dias, em 1981.


Serviço
Título: O castelo do homem sem alma
Autor: A.J.Cronin
Tradução: Rachel de Queiroz
Editora: Fora de catálogo, só encontrado em sebos.
Páginas: 449
Onde comprar: www.ibiubi.com.br/livros
 

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