Um caso insólito

Por: Everton de Paula

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Jesuíno Quintanilha era homem de poucas posses, mas honrado pelo cumprimento fiel de todas suas obrigações na profissão, na família e na pequena Quixeramobim, no interior do Ceará, isso nos idos 1920. Escrivão e mestre-escola, conseguira a duras penas arranjar-se até chegar ao ponto de se considerar digno de pedir a mão de Maria das Mercês em casamento à família Maciel. Diziam que esses Maciéis eram do mesmo ramo do qual nascera Antonio, o Conselheiro, líder fanático e religioso, chefe dos jagunços e morto na guerra dos Canudos, na Bahia, em 1896, pelo exército brasileiro. O que poucos sabiam era que Jesuíno Quintanilha tornara-se ardoroso republicano, após leitura apaixonada que fizera da obra de Euclides da Cunha, Os sertões. Ainda que o Império houvesse desmoronado no Brasil, havia pouco mais de trinta anos, os Maciéis continuavam imperialistas, na mesma lengalenga inútil e laudatória ao comando de Pedro II e na vã e mística esperança sebastianista da volta de uma nova forma de governo católico, justo, do povo, nobre, mas que acima de tudo não cobrasse os impostos que agora eram taxados sobre a terra e a propriedade.

Dura situação: o pobre republicano pretender a mão da filha de um capitão imperialista, na época título honrado que se recebia por pertencer à Guarda Nacional. Mas seu currículo de homem público convencera o sogro.

Casaram-se o escrivão e a filha do capitão.

Imagine o leitor a situação aflitiva de Jesuíno: manter-se fiel às suas mais profundas crenças políticas, preservando laços de generosidade com a família de Mercês. E mais: como escrivão do cartório local e mestre-escola, guiar-se pela conduta pautada pela honra, idoneidade ilibada, dia a dia esquivando-se dos erros que um humano e pobre imortal poderia cometer por uma simples palavra na sala de aula, ou uma inocente e indevida vírgula na escrituração de alguma propriedade rural.

Não era fácil; entretanto, foi aos poucos ganhando a confiança e até mesmo uma pontinha de admiração por parte dos Maciéis em face de sua pertinência e pelo modo afável com que tratava sua esposinha. Muito primorosa esta: trazia a casa simples em que moravam numa limpeza só, além de se mostrar cheia de prendas na culinária nortista. Apenas o capitão Delgado Maciel, o sogro, trazia lá um não sei quê de desconfiança contida quando o assunto era o genro.

Mas a vidinha ia se tocando pelos lados de Quixeramobim. Até que... Bem; um, dois, quase três anos de casados e o povo começou a comentar: “Cumé qui é, cumé qui não é, nasce hômi ou nasce muié?” E a estranheza foi tomando forma afinal, sairia ou não um rebento daquele casal?

Esta situação foi aos poucos atazanando o capitão, a ponto de, uma noite, chamar o genro do lado e dizer-lhe de forma peremptória: “Senhor Jesuíno, não consegues embarrigar tua esposa? Um neto, é tudo que preciso para calar a boca dessa gente... E já!”

O pobre moço, acostumado a obedecer ordens desde menino, viu-se na obrigação de cumprir a tarefa. Meteu-se a campo com todo o vigor, para espanto e gozo da Mercês e para que continuasse a reinar por um fio a paz entre republicano e imperialistas. Coisinha de algum tempo depois, eis a esposinha prenhe. Felicidade geral e apaziguamento temporário, pois que a tempestade não demoraria a desabar sobre a cidade onde nascera Antonio Conselheiro.

Nove meses se passaram. E numa noite fria de junho, a parteira fora chamada às pressas à casa de Jesuíno, já que as dores de parto haviam começado. O capitão Delgado, afobado entre ajeitar os suspensórios e mal calçando as botas, rumara ao lar da filha, acompanhado pela esposa.

Não se perca, leitor, com esses pequenos detalhes. Tenha em foco que Jesuíno Quintanilha era homem comprometido até o pescoço com as coisas certas, com resultados absolutamente precisos. Um perfeccionista, por força da vida, da profissão, dos relacionamentos. E foi neste ambiente que, após quase três horas de trabalho duro da parteira, esta chega à sala, limpando as mãos sujas de sangue, olhos esbugalhados e pálida como leite desnatado; diz trêmula:

- Nasceu!

O seguinte diálogo seguinte deu-se entre Jesuíno, com as perguntas, e a parteira tentando responder:

- Homem ou mulher?

- Ããã ... Acho que mulher!

- Acha? Como acha?

- É que... Bem... Nasceu... Bem, senhor... Como é que eu digo... Nasceu... Nasceu uma orelha!

- Ora, mas é claro que nasceu uma orelha, senhora parteira; uma não, duas; assim como duas mãozinhas, dois pezinhos, dois bracinhos, dois olhinhos, o corpo inteiro, ora essa...

- Não, senhor Jesuíno, o que eu quero dizer é que nasceu somente uma orelha... Nada mais. Rosadinha, bonita, palpitante, saudável... Mas apenas uma orelha! Não tem bracinho, não tem corpinho, não tem umbigo... Apenas e somente uma orelha!

O mundo de Jesuíno Quintanilha veio abaixo. O sogro, lá na cozinha, ainda não havia entendido bem o que estava ocorrendo. Jesuíno voou para o quarto. Encontrou Mercês na cama, aturdida. Foi ao bercinho. E lá estava o inexplicável, o insólito: uma bonita orelha, de mais ou menos quarenta centímetros, muito bem agasalhada dado o frio que fazia naquela madrugada inesquecível.

Há coisas que a psicologia moderna ainda não explica. Uma delas é a reação sensata e serena de um perfeccionista ante a miserável obra de sua criação. Jesuíno curvou-se e, sabe-se lá movido por que tipo de sentimento humano, compadeceu-se de sua “filha” e murmurou alguma coisa terna, muito baixinho à orelha.

Vendo e ouvindo tudo o que se passara, a parteira, meio que sem-graça, aproximou-se de Jesuíno Quintanilha e lhe disse:

- Senhor, fale mais alto... Ela é surda!

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