Parece piada

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Meu amigo Edu, corretor, é muito grande e, grande mesmo todos dizem isso é a sua seriedade. Por isso, acreditei piamente na história que me contou.

Mineiro, como ele, resolvi, no entanto, ouvir outras fontes a fim de que não pairassem dúvidas sobre a veracidade da narrativa, ouvida ali na banca de revistas do Milton que não prestou atenção ao relato, ocupado na anotação e conferência de algumas informações que lhe chegavam pelo rádio.

Saí dali convencido de que seria prudente ouvir a versão de outro corretor, ao menos para dirimir dúvidas ou preencher alguma lacuna. Então, fui bater às portas do escritório do Ronan, com quem convivo há anos e que sempre me orientou:

- É imprescindível uma segunda avaliação. Sempre.

Fazendo-se abstração das diferenças de vocabulário, esquecendo as risadas, o Ronan contou a mesma história. E insistiu:

- Quando o Edu fala, boto as duas mãos e os dois pés na fogueira.

E deu foi um sorriso maroto quando perguntei se fazia aquilo devidamente calçado com botas, com luvas, ou estando desnudo.

Assim, eliminadas quaisquer possibilidades de passar adiante informações inverídicas, elimino as risadas de um e a seriedade do outro, divido as duas versões por dois, passo ao leitor a média que me sobrou de ambos os testemunhos.

Edu e Ronan cresceram nas proximidades do Brejinho, venda localizada às margens da então única estrada que ligava Patrocínio Paulista a São Tomás de Aquino.

Por aquela quase estrada boiadeira, repleta de curvas e mata-burros, passava uma jardineira duas vezes por dia. Saía de madrugada, de São Sebastião do Paraíso, entrava em São Tomás de Aquino, fazia parada no Brejinho e ia para Franca, passando antes por Patrocínio Paulista. Na volta, passava pelo Brejinho por volta de dezesseis horas.

Ali perto, e à beira da estrada, morava um casal: Dito Preto e Dona Fiúza que, à passagem da jardineira, colocava a panela no fogão, começava a fazer o almoço ou a janta.

O tempo correu mais que a jardineira, entupida de gente, de galinha, de filhote de cachorro,de gaiola, às vezes até de tatu-galinha. Toda a redondeza acabou sabendo que o relógio da Dona Fiúza era a buzina do coletivo tentando espantar vacas que ruminavam bovinamente no leito do caminho, querendo alertar passageiros que cochilavam, sentados em sacaria, dentro da venda.

O tempo passou e, se dona Fiúza não perdia o horário das refeições, o marido perdia gradativamente a visão. Até que teve de ser levado a Belo Horizonte, para ser operado de catarata.

Na capital mineira, foi instalado em pequeno hotel, enquanto aguardava a convocação do hospital para a cirurgia. Dizem que foi imenso o susto que levou o Dito Preto ao olhar pela primeira vez pela janela. Em meio à neblina que só nele havia, observou o trânsito lá embaixo, não se cosnteve:

- Nossa Senhora! Se a gente morasse aqui, a Fiúza não ia tirar a panela do fogo.

Francamente, achei que era piada quando ouvi a história.

Não era piada.

Convenceram-me o testemunho imparcial do Ronan e as feições do Edu. Ao contar o acontecido, manteve, todo o tempo, cara de gerente de banco quando nos nega empréstimo.

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