Fernanda Takai, a música em prosa

Por: Maria Luiza Salomão

Fernanda é integrante da banda Pato Fu. Fiquei encantada com um CD em que ela interpreta canções imortalizadas por Nara Leão, e que teve em Nelson Motta o idealizador, o diretor artístico da empreitada.

Há muito em comum entre as duas, não sei se a voz mansa, bem controlada, afinadíssima, se a semelhança do timbre. Quando Nelson Motta a procurou para realizar o projeto, fascinado com a proximidade artística visualizada por ele, soube que Takai ouvia Nara Leão quando criança, pela estética musical dos pais.

A interpretação Takai do repertório, que Nara tornou clássico no cancioneiro nacional, é emocionante. As duas têm a capacidade rara de doar à canção algo pessoal, simples, direto, doce e terno, sofisticado. Reconheço a voz de Nara em qualquer música. Em uma livraria, no Rio, ouvi o CD, que soou familiarmente estranho. Nara Takai. Fernanda Leão.

Em 2008, SP, Fernanda, pela Panda Books, reuniu 40 crônicas sob o título de “não subestime uma mulherzinha”, em minúsculas. Há um mix de tons, confessional, ficcional e bem humorado de temas que perpassam o cotidiano e instigam a pensar num plano maior e mais profundo. A autora nos leva a pensar que talvez possamos não só lidar melhor com o que nos acontece, mas ainda mais em, delicadamente, expandir a humanização.

Divertidamente a autora separa os textos em 1.”coisas que talvez tenham acontecido” (talvez contos), 2.”coisas que aconteceram”, 3.”coisas que fazem barulho”, 4.”coisas que ninguém sabia”, 5.”coisas que são raras’, 6.”coisas que nem sei’. O projeto gráfico é sugestivo. O pontilhado à esquerda indica as margens não respeitadas, e a diagramação não segue um padrão as linhas ficam tortas na margem direita, como que sugerindo que as palavras não estão sujeitas à formatação, como os sentimentos certamente não estão. Como a própria vida, que não pode ser formatada.

Diz no prefácio Zélia Duncan: “Fernanda faz parte do seleto e indispensável grupo de pessoas que acredita e trabalha pro mundo dar certo. (...) O micro que constroi o macro, que pode valer a pena.(...)

José Miguel Wisnik, em um Café Filosófico da TV Cultura, músico e também crítico literário, ao falar da Melancolia, destacou este saber “usar a leveza da arte para atravessar os trechos pesados da vida”.

Creio que Fernanda tem isso de leveza, seu rosto é franco, e geralmente suas fotos nos olham diretamente, com grandes olhos negros, e um sorriso que é um quase nada, mas sabemos que ele está lá. Sua ascendência japonesa está em um nível sutil, não nos olhinhos que nem são tão puxados, ou no cabelo negro azulado lisinho, que ela usa bem curto em pontas irregulares. Está em algo que nos acostumamos a ver na cultura japonesa - que silencia, colore, e fica no essencial, no mínimo que desenha o arquétipo da coisa, aquilo sem o qual o ser não é o que ele é. Sem o quê a rosa deixa de ser rosa, o cachorro deixa de ser cachorro.

Meu mundinho interno levitou ao seguir o ritmo de Fernanda, suas 135 páginas de reflexão que não criam culpas, cinismos ou escárnios (comuns na contemporaneidade), nem regras de como existir neste mundo. Cada vez mais acredito que Sabedoria segue um Ritmo.

Há gentes no mundo que sabem como ritmar ideias, saberes, e nos animam a viver mais e melhor! Eu concordo com Zélia D., que são indispensáveis. Em tempos sombrios, em meio a homens sombrios, um timbre claro a nos fortalecer.

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