Desastre

Por: José Borges da Silva

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A um canto discreto do quintal, grudado no beiral da casa, posicionada exatamente na posição Leste, uma bolota cinza claro evoluía vagarosamente. Somente em espaço de vários meses se via que ela estava crescendo, ganhando corpo. Só olhando bem de perto se via os minúsculos marimbondos labutando, zarpando e retornando em vôos intermitentes. Dava pra vê-los apenas quando saiam e quando chegavam. Fora desses momentos era impossível acompanhá-los com olhos humanos. Na verdade, o que se deve descrever é que decolam e aceleram, até se tornarem invisíveis. Não se pode descartar, sem maiores investigações, que eles transitem por uma dimensão desconhecida. Não me refiro àquela dimensão que relaciona tempo e velocidade, que torna visível, por exemplo, o crescimento das plantas, quando as filmamos crescendo por vários meses e depois aceleramos a exibição do filme... Falo de uma daquelas dimensões que ocultam caminhos mais curtos entre distâncias imensuráveis, entre estrelas, por exemplo. A Física chama a essas vias de buracos de minhoca. O fato é que raramente os marimbondos eram vistos pousados senão na sua pequena casa. Era praticamente um mistério o destino dos seus vôos, à exceção de alguns que eram vistos no bico da torneira do quintal, coletando água ou alguma secreção invisível. E de alguns outros poucos que se confundiam e acabavam zonzos sob a lâmpada da sala.

Nos dias frios do inverno, a sua caixinha algo espiralada era um dos primeiros pontos do quintal que o sol da manhã iluminava.

O silêncio era sua maior marca. A discrição nos movimentos outra característica que os integrava ao ambiente do quintal praticamente sem serem notados. Impressionava a paz em que viviam, embora tachados de guerreiros armados de ferrão de fogo.

No entanto, numa dessas madrugadas de temperatura em torno dos cinco graus, um estranho ruído acordou a vizinhança. Pareciam marteladas rítmicas proferidas contra o beiral da casa. Pica-paus na cidade? E bicando o quê se o beiral é de concreto e revestido de calhas metálicas? Nada novo na Natureza, certamente, senão para os discretos vizinhos, cuja bela casa teve um terço do seu corpo arrancado e espalhado em forma de pequenos destroços pelo chão. E em meio aos escombros, grande número dos pequenos seres alados como que em transe, com as diminutas asas recolhidas, inertes. Lá no alto, sobre o que restou do ninho, um pequeno grupo se movia lentamente, sem poder voar.

Só quando o Sol atingiu o solo é que aqueles que estavam espalhados no meio dos destroços começaram a se mover, lentamente no início, até alçarem vôo e desaparecerem no trajeto de suas missões misteriosas. E, igualmente os do alto começaram a voar em torno dos escombros que sobraram grudados no beiral tão logo os raios de luz os atingiram.

Uma dúvida incomodava: haveria reconstrução, recomeço?

É certo que alguém questione a preocupação com meros insetos. Mas, confesso que fiquei ainda mais admirado com a conduta dos meus simpáticos vizinhos. Porque, uma semana após já não se vê mais sinal da destruição havida. Parece que eles se multiplicaram na reconstrução. Quanto ao motivo de se abordar o seu drama, não nos é familiar essa visão de ter o mundo em pedaços, espalhados pelo chão, e ter de recomeçar de novo?

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