‘O Discurso do Rei’ chega às locadoras

Por: Sônia Machiavelli

136122

Em maio de 2007 a mãe do cineasta Tom Hooper, que é australiana e sempre foi ligada às artes, recebeu um convite do escritor David Seidler para assistir a algo que lhe pareceu ser a leitura de um possível documentário. De início relutante em se deslocar até Londres, acabou cedendo à pressão de amigos e foi ver do que se tratava afinal. No dia seguinte visitou o filho e lhe disse que havia acabado de encontrar a história que ele transformaria em grande filme. O jovem Hooper não produzira nada de muito importante até então. Seu melhor trabalho fora para a televisão , uma série histórica sobre Catarina I. O texto a que a mãe se referia era O discurso do rei.

Tão logo o leu Hooper também se entusiasmou, começando a pensar em quem convidaria para os papéis principais. Em seguida vieram meses de envolvimento, pois é conhecida dos que o cercam a tendência perfeccionista . O empenho e o entusiasmo deram certo, a intuição profética da mãe apontara um caminho de sucesso: o filme, cujos trabalhos duraram apenas dois meses, de dezembro de 2009 a janeiro de 2010, foi o grande vencedor do último Oscar. Indicado em 12 categorias, o longa-metragem saiu da cerimônia com quatro das principais estatuetas: melhor filme, ator, diretor e roteiro original. Se você não viu na telona, tem agora a oportunidade de assistir em casa. O DVD acaba de chegar às locadoras.

A história é linear mas não simples. O protagonista, o duque de York (Colin Firth, extraordinário desempenho), segundo na linha de sucessão da família real britânica, luta contra um problema que o aflige desde o quarto ano de vida : é gago. Se não tivesse algumas obrigações como herdeiro da Coroa inglesa, talvez houvesse se recolhido à sua casa, bem cuidado pela amorosa e leal esposa, Elizabeth, interpretada por Helen Bohan Carter. Acontece que algumas vezes ele precisa falar em público, coisa que costuma assustar até mesmo os fluentes, quanto mais os gagos. Na tentativa de o ajudar, Elizabeth o leva, depois de peregrinação por vários médicos, a um especialista em dicção que não é formado em medicina nem gosta que o chamem de doutor. Lionel Logue (Geofrrey Rush), este o seu nome, tem uma rara sensibilidade para diagnosticar problemas de fala e de emoções. De início, estranhando seus métodos, o duque recua; mas diante da iminência de ter de assumir o trono porque seu irmão abdica (para se casar com uma americana divorciada, Wallis Simpson), vê-se forçado a tentar uma cura. O caminho será longo, difícil, sofrido. Mas a vitória chega no momento em que o rei deve falar à nação e unir seu povo, diante de ameaças estrangeiras aterradoras.

Relatada assim de forma sintética, paráfrase mínima, a narrativa perde a grande beleza que faz dela a obra de arte consagrada pelo maior dos prêmios que se pode atribuir ao gênero. E talvez por ficar apenas na superfície, uma parte dos espectadores tenha criticado o filme pelo fato de “contar uma única história”. Na verdade ele conta pelo menos duas: a da reabilitação vocal e psíquica de George, e a da sua relação com uma pessoa totalmente diferente, um plebeu com quem consegue estabelecer vínculos de sincera amizade, condição para sua salvação. Ambos sabem que há um bloqueio que impede a fluência e trabalham de forma comovente para o transpor. O espectador se vê portanto diante da história da superação de quem não conseguia falar com fluência e a da história de quem se deixa envolver emocionalmente pelos afetos sinceros de um bom homem que pode anular um nascente ridículo. Os dois planos se entrelaçam de jeito tão íntimo e profundo, que quase não conseguimos deslindar as duas partes. Reside aí a grande qualidade estrutural do filme, que deve ser pensado nas linhas da definição de outro cineasta genial, Robert Bresson (1901/1999), diretor do célebre O processo de Joana D´Arc : “ Cinema não é teatro, nem literatura, mas cinematógrafo, como patentearam sua invenção os irmãos Lumière, ou seja, uma linguagem feita de imagens em movimento”.

As imagens são o maior trunfo deste filme de diálogos econômicos, onde o ornato verbal pode parecer quase inexistente. Tudo o que precisa ser dito o será mais pelo movimento das imagens que pela articulação da fala. Isso até o momento final, carregado de suspense. A última cena fecha com intensidade uma história que faz pensar em integração das diferenças para que a voz ganhe autonomia . Os gregos antigos , que tudo sabiam, chamavam “eulalia” a esse estado de fluidez e harmonia . Já deviam saber que fala tem tudo a ver com autoestima.


JOVEM DIRETOR

Tom Hooper

Ainda não completou 40 anos o diretor do filme que levou quatro estatuetas na última premiação do Oscar. Thomas George Hooper é um desses casos onde a precocidade aponta sem titubear o caminho profissional a seguir. Aos doze anos, talvez se mirando no exemplo da mãe escritora, Meredith, escreveu um livrinho com o título Como fazer um filme. Aos treze pediu ao pai, Richard, executivo de contas, uma filmadora. Com ela fez seu primeiro curta, Runaway Dog, que concorreu num festival de amadores. Aos 14 produziu Bomber Jacket, classificado num concurso da BBC promovido para encontrar novos talentos. Aos 15 ficou conhecido pelo documentário Painted faces, transmitido pelo Channel em 1992.

Em Oxford, onde cursou Cinema, também produziu comerciais de TV e dirigiu peças de teatro. Formado, trabalhou para a BBC assinando títulos como Love in Cold Climate, Daniel Deronda, Prime Suspect (Helen Mirren como protagonista). Seu nome, que já era respeitado entre colegas, passaria aos poucos a ser conhecido pelo grande público. Pouco depois, em 2004, estrearia no cinema com Sombras do passado, voltando à televisão para trabalhar novamente com Hellen Mirren na série Elizabeth I, de grande repercussão. Em 2008 viria outra aclamada minissérie, John Adams, e em 2009 um filme de apelo popular, Maldito Futebol Club. Mas quando o ano de 2010 chegou, encontrou Hoopper finalizando O Discurso do Rei, filme que o consagrou definitivamente.


Serviço
Título: O Discurso do Rei
Autor: Tom Rooper
Gênero: Drama
Duração: 118 minutos
Onde: nas locadoras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras