Geladeira

Por: Chiachiri Filho

O Sul é maravilhoso: terra de boa comida, boa bebida e boa conversa. Porém, quando sopra o minuano, a coisa fica feia e o frio é de doer.

Conheci o Rio Grande do Sul numa dessas férias de julho. O Dr. João Penha havia sido convidado para um importante congresso de lingüística e nós, mais do que depressa, nos propusemos a acompanhá-lo. Paulo, motorista de primeira viagem e recém habilitado, assumiu a direção de um Aero Willys marrom , câmbio seco, robusto e espaçoso. Junto dele, assentou-se o proprietário do veículo para controlá-lo na velocidade e nas ultrapassagens. No banco de trás, acomodamo-nos eu, o Zazá e o Manoel.

Dr. João foi lecionando ao longo de toda a estrada e, também, dentro de Porto Alegre. Ao ver uma frase inscrita nos parachoques dos caminhões ou nos cartazes de propaganda, ele virava-se para seus alunos, Zazá e Mané, e perguntava:

- Olhem aquela frase: onde está o erro?

E assim, o Dr. João fartou-se da boa comida, do excesso de erros dos letreiros urbanos e do tratamento privilegiado que lhe davam os frentistas:

- Quer que limpe o parabrisa, General?

E ele, sorrindo, perguntava-nos:

- Vocês acham que eu tenho cara de General?

- No retorno à Franca, a comitiva foi acrescida do Prof. Pio. Distribuímos os pesos no interior do carro e a viagem seguiu com um certo conforto. Saímos de Porto Alegre e fomos pousar em Santa Cecília, Estado de Santa Catarina. O Hotel à beira da rodovia estava lotado. Só podia hospedar 3 pessoas. Como éramos em 6, Manoel, Pio e eu resolvemos dormir no automóvel. Porém, lá pelas 3 da madrugada, apesar de bem agasalhados, não suportamos o frio. Saímos do carro e percebemos que, na verdade, nos encontrávamos dentro de uma geladeira. O veículo estava totalmente coberto de gelo. Tiritando de frio, corremos para um bar anexo ao Hotel. Seu proprietário, homem alto, moreno, forte, de boa conversa e muita cordialidade, abrira-o na espera dos participantes de um baile que se realizava nas vizinhanças. Foi a nossa salvação. Começamos tomando vinho, conhaque, bagaceira. Em torno de um bendito fogão à lenha, consumimos vários sanduíches de filé. Comemos chocolates e tomamos café quentinho e mais conhaque. Enfim, o calor
voltou aos nossos corpos e chegou a avermelhar as nossas faces. Na hora de pagar a conta, o bom catarinense só nos cobrou os chocolates.

De manhã, após tirarmos parte do gelo que cobria o carro, seguimos viagem. A paisagem era deslumbrante e inesquecível. Das colinas brancas de gelo, pontilhadas pelo verde dos pinheiros, nascia uma bola de fogo anunciando a aurora.

É certo que passamos frio. Porém, foi graças ao frio que pudemos vislumbrar todo esplendor da natureza em tempos de inverno.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras