O despacho

Por: Mauro Ferreira

Ele tinha duas filhas apenas. Naquela época, era quase obrigatório casar virgem. Sendo católico daqueles que iam quase diariamente à missa, que tinha sido coroinha na paróquia da pequena cidade mineira onde havia passado a infância, antes de embarcar para a cidade grande num caminhão de mudanças com o pai roceiro, a mãe do lar, os cinco irmãos e o Tiziu, um cachorrinho preto e encardido, essa preocupação existia diante de todo homem que se engraçava para o lado de suas meninas.

Ou talvez nem fosse essa a sua maior preocupação, o que queria era apenas o melhor para suas filhas, fruto de um casamento que havia fracassado depois que ele passou a ganhar a vida viajando e vendendo calçados pelo interior afora. O fato é que, mesmo separado da mulher, manteve todas as suas responsabilidades para com as meninas. Sempre viajando, achou melhor colocar as duas para estudar no internato das freiras, até que tiveram que ir para o colégio estadual para fazer o curso normal e virar professoras.

Nesta época, a ex-mulher e mãe das suas filhas tinha se mudado da cidade, arrumado outro marido e ele havia ficado com a responsabilidade total sobre as meninas. Conseguiu um emprego numa fábrica onde apenas coordenava as vendas, não precisava mais viajar. Com isso, administrava a casa e acompanhava o desenvolvimento das filhas, que agora eram três, pois a amiga Isabela, a Isa, não saia da sua casa, vivia mais lá que na sua própria casa, eram inseparáveis.

Foi quando descobriu que a Malu, a mais velha, estava se encontrando com um rapaz “pinta-braba”. Tentou de tudo. Mostrou que a amiga Isa tinha arrumado como namorado um bom rapaz, trabalhador, e ela não. Colocou-a de castigo, deu bronca, conselhos, levou para confessar com o padre da paróquia, suspendeu o cinema e as brincadeiras dançantes na AEC. Nada funcionou. Desesperado, mesmo descrente de tudo aquilo, foi convencido por um colega de serviço a fazer uma mandinga, uma bruxaria, um despacho, enfim, algo em que nunca tinha acreditado.

Numa tarde de sexta-feira, passou correndo na sua casa e pediu para Malu uma blusa dela emprestada, sem dizer para quê. Mesmo intrigada, ela lhe entregou. A tal blusa foi usada pelo feiticeiro para fazer o despacho. Disse que assim que ela usasse a roupa, iria se separar do tal “pinta-braba”. Na manhã do sábado, colocou a roupa de volta no cabide do guarda-roupa.

No dia seguinte, um domingo, para sua surpresa, encontrou na cozinha de casa as meninas consolando a amiga Isa, que chorava sem parar. Ele quis saber o motivo do pranto. As meninas disseram que ela tinha acabado de romper com o namorado. Foi quando reparou que Isa estava usando a blusa da Malu, tinha apanhado emprestado na véspera.

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