Sobre a mágica do livro

Por: Maria Luiza Salomão

O livro tem dois títulos Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres . Começa com duas epígrafes que falam da alegria como “expressão de dor”, a alegria como mais forte que o amor. A narrativa começa com uma vírgula e o livro se interrompe, súbito, e ficamos com dois pontos, e o vazio nós, leitores, preenchemos como podemos, como alcançamos.

Clarice Lispector, a autora, descreve em sua narrativa um trajeto, um fragmento da descoberta de uma alegria de uma mulher com nome de sereia nórdica, Lóri. Uma alegria que equivale a se descobrir mulher, ser vivo.

Um homem, Ulisses, anseia que Lóri viva uma aprendizagem, a do prazer, a da alegria, e lhe concede tempos e espaços. A mulher estranha. E o homem a espera. Não quer nada dela, nem sexo. A mulher estranha. Mas gosta muito.

Ulisses é, neste livro, a personificação da mítica Perséfone, que tecia e desfazia tapetes a esperar justamente...Ulisses de volta de sua Odisséia. A inversão do gênero dos personagens, mantendo os seus nomes, é emblemática. O homem é quem espera a mulher, ao contrário do mito. A mulher é quem vai viver uma epopéia.

Ulisses espera Lóri, a sereia. Não fecha os ouvidos a ela (como no relato da Odisséia, o mito), não a teme. ULisses ouve Lóri, conversa com ela. Quer o seu crescimento.

Este livro me faz experimentar uma transformação pessoal, a cada leitura, para a qual nunca procurei explicação. Os caminhos que percorro através dos capítulos não me oferecem coisas do tipo: “ amar é...”, ou “alegria é...”. Clarice Lispector se define como aquela que quer “escrever o movimento puro”...

Mas qual é exatamente a aprendizagem de Lóri?

Aí está a pepita da mina. A aprendizagem - é preciso que o leitor sinta a aprendizagem! É preciso ser Lóri à busca de, e também ser Ulisses, o que sabe esperar. A frase central, para mim, p. 31, é uma possível síntese do livro: “a mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. Nada, em si, extraordinário, a não ser o percurso que Lóri faz na escrita feiticeira de Clarice.

A epifania, caso o leitor chegue ao final do livro, se dá na pós-leitura. Caminhe pelo não-escrito, no insuflado pelo sopro do espírito de Clarice.

Quando terminei o livro, pela primeira vez, nada entendi. E, no entanto, mudei! Esperei como Ulisses, arrisquei como Lóri.

Há uma mágica íntima que me escapa ao re-reler este livro (e como reli!). Confesso que em momento algum eu quis saber qual era o truque literário, e se havia algum truque nele.

Guimarães Rosa, disse que um livro vale principalmente pelo que, nele, não está escrito.

Clarice salientou que a vida é maior do que o entendimento que se possa ter dela. Este livro, para mim, é A experiência, vale muito experimentá-lo como um imenso prazer!

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