‘Conto Plausível’

Por: Eny Miranda

Quando severas secas atingem searas abstratas, a rega torna-se muito difícil. Então, as possíveis brotações migram para o campo das impossibilidades. E o murchar de minúsculas heróicas gemas recém-despontadas é inevitável. O terreno das criações, endurecido e gretado, cobre-se de pó fuliginoso, tisna-se, evidenciando a inocuidade de qualquer plantio.

Há que umedecê-lo. Na verdade, há que encharcar seu substrato germinativo. Mas, como?

Foi assim que resolveu - mais que embebê-lo - embebedá-lo, recorrendo a outras líquidas fontes. Imitando Aquele, de Drummond, bebia paisagens, músicas, versos... Tomou memoráveis pileques de cores e formas...

Absolutamente Bêbado, confundia-se com as espirais da Via Láctea, tropeçava nos anéis de Saturno, enrolava-se nas faixas do arco-íris, dependurava-se nos fios de diferentes luares, lambuzava-se das cores do pôr-do-sol...

Da fecundidade dos velhos campos não se tem notícia, mas - dizem os videntes e os sonhadores - em sua alma, hoje, brotam cristalinas fontes de água doce, capazes de enverdecer as mais duras pedras dos caminhos.

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