A ressaca

Por: Mirto Felipim

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Era tarde. Na escuridão do quarto meus olhos ardiam. Não conseguia, por mais que tentasse, me convencer de que, de fato, tudo aquilo acontecera.

Pelo telefone, parecera-me tensa. Não falara com naturalidade:

- Você vai à festinha na casa do Manduca?

- Acho que sim, e você? respondi.

- Ainda não sei. ‘Tou muito legal não’, retrucou suspirando.

- Tudo bem, se você for, a gente se vê lá. Encerrei a conversa.

Quando cheguei, a festa já havia começado e seguia numa animação descontrolada, com todos muito à vontade, talvez à vontade demais. Sequer fui notado, a não ser por Manduca que rapidamente me cumprimentou e, enquanto beijava a menina agarrada ao seu pescoço, sugeriu que eu acabasse de entrar e me virasse. Os pais dele haviam viajado e a agitação corria solta.

Para minha surpresa encontrei-a sentada em um canto da sala. Ao agachar-me para beijar-lhe o rosto, agarrou-me e puxou-me para seu lado beijando-me sofregamente a boca. Após o beijo, ainda aturdido, olhei-a nos olhos vermelhos e molhados e interpelei-a:

- O que está acontecendo?

- Não sei, balbuciou enquanto o rock explodia louco nas caixas de som. Ato contínuo levantou-se e, arrastando-me pelo braço, prosseguiu dizendo coisas que eu mal ouvia e nada entendia. Ao passarmos por uma estante, apossou-se apressadamente de uma garrafa de vinho já aberta e um copo. Atravessamos quase todo o jardim antes que se decidisse parar. Sentamos no gramado em profundo silêncio. Tirou do bolso um pequenino embrulho de papel de seda, despejou seu conteúdo fino feito açúcar dentro do copo, misturou com o vinho e esperou alguns segundos. Quando tentei falar algo, esticou o braço com o copo e ordenou:

- Beba!

Tirei-lhe das mãos o copo e, como se estivesse hipnotizado, fixei meus olhos nos dela.

- Beba, ordenou novamente.

Levei o copo aos lábios e senti o líquido agradável sendo sorvido lentamente pela aridez de minha boca. Percebi todo o som do mundo suavemente penetrando por ondas lentas e inundando minha cabeça. Tomei mais um gole. Esperei algum tempo e tornei a bebericar, reparando com detalhes as profundas olheiras fincadas ao redor dos olhos de Creuzinha. Antes que eu sorvesse todo o líquido, arrancou-me o copo e engoliu o que restava. Súbito, achei-me vulcanicamente bem. Senti sua mão em minha perna. Abracei-a, apertou-se contra meu peito e as carícias se espalharam descontroladas, sem que uma palavra fosse dita. O calor dos corpos tornou-se febre. Os sonhos se misturavam entre infinitos sentidos que existiam apenas em nosso universo de solidificado desejo. As múltiplas mãos se exploravam freneticamente, revelando-nos toda a fragilidade de nossos inúteis segredos. Fomos, naquela fagulha de tempo, a essência da loucura sintetizada no inverso da tormenta.

No auge de nossa inconsciência, senti-a desfalecer. Longinquamente a ouvi sussurrar:

- Estou morrendo.

Eu também, murmurei, entre profundos suspiros vindos não sei de onde, enlaçando-a ainda mais febril. Senti, de repente, a frouxidão de seus braços. Seus lábios murcharam dentro dos meus. Seu corpo não reagia. A febre cessara. Abracei-a desesperado. Estava rija. Beijei-a, apertei-a, bati-lhe. Estava morta.

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