O ônibu

Por: Mauro Ferreira

Meu compadre Paulo Nehemy, portador de uma carteirinha de Passe Fácil, é figurinha fácil no terminal e nos ônibus da cidade. Como sempre, histórias do arco-da-velha é que não faltam nos “coletivos”, desde que o governo Sidnei abdicou de fiscalizar o serviço decentemente. Dia destes, ele entrou no ônibus que vinha da Estação para o centro. No caminho, subiu rapidamente os degraus um sujeito já maduro, alto, forte, caipirão, um chapéu enorme, um daqueles sujeitos que falam alto e ficam comentando a vida e os fatos para todos, quer queiram ou não ouvir.

Na subida da rua General Telles, logo depois do viaduto e próximo ao terminal, um veículo estragado no meio da rua paralisou o trânsito, o ônibus parou naquela rua íngreme e ficaram esperando a liberação da passagem, os freios gemendo sem parar. O sujeito foi ficando nervoso com aquilo e disparou quase gritando: “quando eu era moço, poderia descer do ônibus e tirar aquele carro do caminho com um chute só.”

Dentro do ônibus, ninguém comentou nada, todo mundo agoniado com o atraso, com o possível desconto do patrão no salário e com a situação desagradável. Ficou só aquele silêncio opressivo, que podia ser cortado a faca. O tempo parecia uma eternidade quando que ele voltou à carga: “pensando bem, acho que as botinas eram bem melhores naquele tempo”. Aí ninguém agüentou, foi uma risada só, o mal-estar se desanuviou e logo o tráfego foi liberado.

Infelizmente, neste país, o transporte coletivo ainda não é a prioridade dos governantes. Aqui na Franca, depois da verdadeira revolução ocasionada pelo Passe Fácil nos tempos do prefeito Gilmar, nada mais avançou, a prefeitura saiu de cena e deixou nas mãos da iniciativa privada o controle do sistema, apenas o preço da tarifa é definido pelo governo, mesmo assim sem muita transparência. Enquanto essa situação não mudar, continuaremos vendo o avanço dos automóveis e motos nas ruas e, pior, as mortes de muitos e muitos jovens audaciosos nas ruas da cidade.

Dizem que é o preço do progresso. Não é. É apenas o fruto da imprevidência e da falta de planejamento decorrentes de um governo que não quer transformar nada, que não quer mudar os paradigmas de um modelo urbano fadado ao desastre. A solução é mais e melhores ônibus, ciclovias e calçadas decentes para andar.

Tive uma funcionária que ia para o trabalho de ônibus. Meu filho Pablo ainda era pequeno. Certo dia, ela disse que tinha que ir embora mais cedo para pegar o ônibu. O menino, todo circunspecto, disse: “o certo é ônibus”. Ela respondeu de bate-pronto, firme: “um só, é ônibu, se fossem vários é que seriam ônibus”. Por via das dúvidas, ao invés de escrever este texto no computador, preferi usar o “lápi”.

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