O Carinho

Por: Maria Luiza Salomão

O carinho é responsável por nove décimos de qualquer felicidade sólida e durável existente em nossas vidas.
C. S. Lewis

Raros, sofisticados, os momentos carinhosos que garantem a felicidade.

Carinho lembra carícia, coisa de corpo. No entanto há olhares que parecem ter mil dedos aveludados. Palavras evocam arrepio, tremor, alegria mansa, revitalizadora da alma dorminhoca ou excessivamente lutadora.

Carinho desarma. Devia existir um pó-de-carinho, ou um aerosol, invisível, para jogar nas filas, de supermercado, banco, nas brigas entre casais, pais e filhos, amigos, no trânsito. Depois do carinho espargido no ar, passar do ódio à ternura, ao desejo de intimidade, e ao riso.

É risível sentir raiva desmedida! Qualquer desmesura nos sentimentos, no trágico da vida, se torna comédia, para quem tem Humor. Pena que no fervor da briga é quase impossível rir, ter maior fluidez, ser mais leve, e assim sacar qual é o verdadeiro impasse.

Ser carinhoso demanda alguma experiência acumulada, um conhecimento filosófico-antropológico-psicológico-sociológico, uma espiritualidade (não tem nada a ver com superstição) desenvolvida para crer no Invisível, Intocável, Incompreensível, Inimaginável, Incongruente.

Jesus disse, revolucionariamente, “amai ao próximo, como ama a ti mesmo”. O tal “como a ti mesmo” é o estopim da re-evolução nas relações humanas.

Se não sou capaz de delicadeza com minhas imperfeições, se não me aceito na Doença, na Pobreza e na Tristeza, como abrigar alguém, nas mesmas condições? Como intuir, debaixo de áspero escudo de aço, das palavras pontiagudas e cortantes, que há alguém à espera de carinho? É preciso coragem para ser carinhoso. Na Guerra há matemática, poder, e cálculo. No Carinho, apenas Arte, necessidade de expressão, que cria e não se acanha frente ao novo.

Haja confiança e fé na Bondade, na própria e na do Outro. Na gratuidade do ato, sem expectativa de retorno, fonte e caminho para a Alegria.

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