Rosa de Malherbe

Por: Everton de Paula

Diz-se que alguma coisa teve “a duração da rosa de Malherbe” quando durou muito pouco. A expressão romântica tem origem na poesia do poeta francês François Malherbe (1555-1628), intitulada “Consolação ao Sr. Du Périer, gentil-homem de Aix-en-Provence, pela morte de sua filha”, na qual se lê esta estrofe:

Mais elle était du monde
(Mas era ela do mundo)
Où les plus belles choses
(Onde as mais belas coisas)
Ont le pire destin;
(Têm o pior destino);
Et rose elle a vécu
(E rosa ela viveu)
Ce que vivent les roses:
(O que vivem as rosas)
L’espace d’un matin.
(Uma breve manhã.)

Belo e triste, não?

Os exemplos de emprego dessa locução pululam: O sorriso da debutante durou menos que uma rosa de Malherbe... Tristeza de pobre não tem fim; seus pequenos momentos de felicidade, no entanto, são como rosas de Malherbe... São rosas de Malherbe esses raros momentos de prazer na companhia de parentes distantes que nos visitam... Passeio de tico-tico no quintal da gente dura menos que a rosa de Malherbe... E assim vai!

Deu para entender, leitor?

Então!

Tenho procurado o antônimo para esta expressão; confesso, não é tarefa fácil. Pensei em Inferno de Dante (mais sofrimento e crítica social que sugestão de eternidade), Tarefa de Sísifo (idem), Tonel das Danaides... Dizer simplesmente “eternidade” ou “para sempre” é simples demais... Simples e pobre ante a imagem criada pelo poeta. Se você, meu boníssimo e paciente leitor, elaborar uma expressão antônima à altura de Malherbe, será muito bem vinda.

Assunto puxa outro.

Às vezes a duração de uma rosa de Malherbe não precisa corresponder exatamente ao tempo real. Este pode muito bem ser subjetivado. Qual o coração sofrido que ao perder a companheira de tantos anos não possa julgar aquelas mais de cinco décadas como a efêmera duração de uma rosa de Malherbe? Ou uma noite de verão passada nos braços da amada, não teria por acaso, após dias decorridos, uma duração de tempo de nadinha, nadinha no mais fundo do coração febril do apaixonado?

Posso citar com certeza o que não foi uma rosa de Malherbe em minha vida: decorar as cinco declinações latinas, as teorias de Pitágoras, os regimes verbais, as “tábuas” nos bailes da vida (“tábua” é quando você convida uma senhorita para dançar e ela simplesmente diz “não!”), os primeiros períodos de revisão varando madrugadas no jornal, os plantões no Tiro de Guerra, as intermináveis tardes de domingo ensolarado embaladas pela música sertaneja amplificadas pelo aparelho de som do vizinho...

Não nos enganemos, porém. Uma fase duradoura não significa obrigatoriamente que tenha sido dolorosa. As declinações latinas, assim como os estudos de Literatura, Filosofia, Sociologia, Mitologia, por exemplo, custaram-me anos, mas me foram prazerosos e úteis, até hoje.

E outro detalhe: aquilo de que se possa dizer “rosa de Malherbe”, seja lá o que for, além de sua efemeridade é absolutamente incontrolável, e só se percebe quando já escapou de nossas mãos ou de nossa alma. Engano humano pressupor algo como uma rosa desse poeta francês enquanto esse algo é, existir, manifestar-se.

Assim, ante o prazer imensurável, mesmo sem saber o quanto irá durar, possivelmente configurado na insustentável leveza do tempo, tenhamos a presença de espírito para o nosso coup d’oeil ou doup d’âme e deixar fruir em nossos sentidos o mais puro encanto e deleite de um prazer efêmero como o cair de uma pétala de rosa a rosa de Malherbe.

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