Mudança

Por: Marco Antonio Soares

Meu amigo, Chico Franco, está de mudança. Vai para uma casa maior onde cabem toda a sua generosidade, toda a sua inteligência, todo o seu carisma. Lá os cômodos são bem mais amplos, assim, suas histórias podem correr livremente, podem convidar irmãs maiores e menores para que preencham todos os espaços vazios.

Foram anos de boa vizinhança, o velhinho ainda não se foi, mas já desperta uma grande saudade em mim. Saudade das vistas que eu poderia ter feito e não fiz, saudade de seus braços abertos, de seu abraço apertado, saudade das vezes em que me chamou de menino mesmo sabendo de meus 43 anos. Chico Franco não foi apenas meu vizinho, foi em muitos momentos meu professor. Ensinou-me a compreender melhor as pessoas, ensinou-me o caminho do perdão, a mágica do bom humor, a persuasão de uma boa gargalhada. Enfim, deixou-me em silêncio, quando entre uma piada ou outra semeava alguma coisa séria em meu espírito:

- Menino, um homem andando de bicicleta na contramão está escrevendo um livro de exemplos.

- Menino, Deus não possui mãos, nós somos as mãos de Deus.

Vejo-o agora com seu chapéu panamá, que o descobre diante dos mais afortunados e dos que perambulam pelas ruas de nossa cidade em busca de algumas migalhas. Vejo-o agora em seu terno impecavelmente branco, que lhe confere um ar de pureza. Vejo-o agora com sua frágil bengala de vime que tem a difícil missão de equilibrar o mundo a seus pés.

Vejo-o encostado próximo ao caminhão baú, que engole com facilidade seus poucos móveis. Aproximo-me, ele está eufórico como na maior parte do tempo, beijo-lhe as mãos, pedindo-lhe a bênção, ele não compreende, mas me abençoa assim mesmo, penso em dizer-lhe que o admiro como um filho admira ao pai em sua mais tenra idade, mas nada digo.

Ajudo-o a subir na boleia do caminhão.

- Até logo, menino.

- Até logo, seu Chico.

Ele talvez não o saiba, mas a única coisa que agora tenho de menino é sensação de ter perdido o meu mais valioso brinquedo e uma vontade grande, uma vontade muito grande de chorar.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras