Muito prazer

Por: Mirto Felipim

Não se lembrava mais dela nem do amigo, quando, de repente, sábado, logo após o futebol, tomando uma cerveja no shopping, a viu desfilando com um casal de colegas. Apesar do cabelo vermelho a reconheceu de pronto. Mais bela e desejável que nunca. Não comentou com os amigos de mesa, temendo uma sonora vaia de descrédito, e também porque teve certeza de que ela não o vira ou fingira que não. Voltou-se para a mesa, continuou sua cerveja e o papo envolvente e inútil.

Ao ser tocado no ombro, interrompeu o trajeto do copo e virou-se espontaneamente na certeza de que não era algum conhecido. Era Jupira. Os amigos interromperam a conversa. Levantou-se, fingiu surpresa, perguntou da faculdade, dos pais... Ela o interrompeu dizendo gentilmente que estava tudo bem e que gostaria de encontrá-lo. Claro, ele se prontificou, sem poder evitar o olhar passeando entre os seios e a boca carnuda. Se estivesse precisando de alguma ajuda, estava às ordens. Já retirados, a uma distância prudente da mesa, ela simplesmente disse que precisava dele. Explicou que só ficaria na cidade até o dia seguinte quando partiria à noite. Gostaria de encontrá-lo de dia. Celulares trocados ela ficou de ligar mais tarde, como de fato o fez, para confirmar.

Desorientado, desconfiado, apesar de todo o charme que sabia possuir, e, principalmente, temeroso, resolveu recorrer à irmã, uma sessentona, há anos trabalhando em um consultório médico, mantendo em casa um notável acervo de amostras grátis de tudo. Ela, meio desconfiada, mas pensando na honra da família, fuçou dentro de suas gavetas abarrotadas de panacéias, sacou uma e, mostrando vitoriosa o troféu, sentenciou: - dizem que não falha, passando-lhe em seguida a cartelinha com duas pedrinhas mágicas. Jupira ligou. Marcaram para as dez da manhã no acanhado apartamento dele. Ela tocou a campainha pontualmente. Ele retirara um dos compridos da cartela e tomara, como aconselhado pela irmã, cerca de vinte minutos antes do encontro. Ela entrou. Ele ficou meio encabulado. Ela quebrou o gelo, escolheu um CD estilo sertanejo universitário, ele sorriu, pensando ter acertado em cheio ao ter comprado aquela droga e colocado-a estrategicamente sobre o aparelho. Falaram do baile onde se conheceram, falaram da faculdade, evitaram falar sobre o pai, falaram de música, ela se esgueirou para a poltrona individual onde ele estava. Deslizou as mãos por seus cabelos. Ele sentiu subir o explicável fogo do tesão, com sua braguilha ameaçando arrebentar. Abraçou-a, levantaram-se, sentiu seu sexo querendo romper todos os tecidos, arrancou-lhe a camiseta lentamente, os peitos deliciosos, do tamanho exato, saltaram, ficou louco e, de repente, um pânico de falhar na hora h tomou conta. Deitou-a lentamente no sofá. Aparentando calma, ele pediu a ela um breve momento. Foi ao banheiro, retirou a cartela estrategicamente escondida sob as toalhas, arrancou mais um comprimido e tomou com água da torneira mesmo.

Com toda a confiança do mundo retornou à função. Do sofá para a cama, da cama pro chão, do chão pro chuveiro, em pé, de lado, deitado, enfim, ele foi o cara. Por volta das três da tarde, após comerem um lanche feito ali mesmo, regado a mútuos elogios, ela disse ter de ir e ele, aliviado, se propôs a levá-la. Viera de moto, não precisava. Não combinaram mais nada, nem mesmo telefonarem. A magia não deveria ser quebrada. Um beijo selinho encerrou o encontro e ela se foi.

Feliz da vida, colocou o plugue do telefone na tomada, prudentemente retirado antes do evento, e ligou para a irmã. Queria agradecer e também precisava falar com alguém sobre seu fantástico desempenho, mesmo com o reforço medicinal. Ela atendeu com voz preocupada: - Onde você andou o dia todo, que ´tou ligando pro seu celular e pra sua casa e só dá desligado. -Desliguei, você sabe o porquê. Ela retrucou mais preocupada ainda: -É sobre isso mesmo que quero te falar. Ontem à noite, na confusão da gaveta e sem meus óculos, te dei a cartela errada, aquelas são amostras grátis de remédio para o fígado, nada a ver com o que você me pediu. - Sorrindo, sem saber o que dizer, com a felicidade juvenil explodindo no peito, ele simplesmente respondeu: - Tudo bem, já que tomei remédio para o fígado, vou tomar um uísque pra comemorar, e, antes que ela perguntasse qualquer coisa, desligou.

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