Expressão idiomática

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Não via o Zezão há pelo menos cinco anos. Reconheceu-me, lá na esquina das ruas Estêvão Marcolino e Alberto de Azevedo, abraçou-me com a efusividade de sempre, repetiu a risada longa de sempre, contou histórias recentes.

Estivera navegando de balsa. Em Rifaina, com alguns amigos novos, outros da nossa época de jogadores de futebol. Haviam levado um rapaz cego que adorava cerveja. Vestiram-lhe um colete salva-vidas, meteram-lhe uma lata de cerveja na mão, navegaram em círculo por alguns minutos. Desligaram o motor da balsa, mentiram para o ceguinho que já ingerira metade do conteúdo da lata de cerveja.

- Chegamos no barranco. Pode descer.

Além de cego, o rapaz era crédulo. Seu pé procurou apoio fora da balsa, o líquido não ofereceu, caiu na represa, a latinha de cerveja na mão. O homem engoliu água, a latinha ficou novamente cheia, sempre firme numa das mãos, enquanto a outra procurava desesperadamente a terra, qualquer coisa sólida onde pudesse agarrar-se. Não se lembrou em nenhum momento é que estava protegido por colete. Por isso, berrou, esbravejou, apelou a todos os santos e aos companheiros. Estes sumiram, só voltaram quinze minutos depois.

Recolheram o cego agora rouco e vermelho, levaram-no para terra firme.

Desembarcado, ainda com a latinha de cerveja na mão, cheia de água, o cego foi interrogado sobre a experiência vivida. Ele foi sintético:

— Cego na água, tá n’água.

O Zezão se foi dando risadas e eu fiquei abobalhado por um tempão, querendo lembrar quantas e quantas vezes o quarto-zagueiro e outros jogadores do São Paulinho aprontaram comigo menino da roça - que chegava para jogar entre craques como Pelezinho, Odésio, Beiço, Tiplum, Dito, Válter Branco...

Desta vez, porém, levo vantagem. Quando tiver de ensinar expressão idiomática, ilustrarei com a aventura e fala do cego amigo do Zezão.

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